Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Individualização da conta de água é justiça social

Eduardo Lacerda*

Cada vez mais brasileiros vivem em condomínios, muitos pela primeira vez. E um dos questionamentos mais comuns em assembleias, em especial por parte desses novos moradores, é: por que eu pago pela água que o meu vizinho usa? Por que, ao contrário de serviços como luz e telefone, não posso pagar somente pela água que eu consumo? Em tempos em que redução de gastos está na pauta de todas as famílias, o item água, que representa cerca de 25% do valor do condomínios, é a bola da vez. É difícil mesmo entender por que razão uma pessoa que mora sozinha é obrigada a pagar o mesmo valor de conta de água que uma família de cinco pessoas.

Os motivos são simples e ao mesmo tempo complexos. Um deles é que ainda não temos uma legislação em nível nacional que obrigue a instalação de hidrômetros individuais em novos condomínios, pois, segundo nossa Constituição, a questão tem de ser regida por leis municipais. Sendo assim, por ora, cabe aos municípios criar ou não uma lei para esta questão. No entanto, por parte dos compradores de imóveis, não parece existir ainda a cultura de exigir das construtoras que entreguem os edifícios com este sistema em funcionamento, ou por outro lado a visão das construtoras de mostrar valor agregado para seus clientes entregando um prédio cuja cota de condomínio seria mais barata, estando a conta de água individualizada e, portanto, fora do rateio coletivo. Por fim, a população em geral ainda sofre com a falta de informação sobre o tema e tem dificuldade em discutir o assunto com as administradoras, que poderiam, em alguns casos, ter um papel mais ativo neste sentido em favor de seus clientes.

Cabe esclarecer que a implantação da medição individualizada de água pode oferecer economia de até 40% para quem gasta abaixo da média de seu prédio, algo como 70% dos apartamentos. Quem gasta pouco paga pouco. Quem gasta muito tende a economizar, pois o impacto da conta leva à maior conscientização e consequente mudança de hábito.

Em nosso país, a maior parte das ações de reeducação só funciona quando se mexe na parte mais sensível de todos nós, o bolso. Porém, mais do que economia de recursos financeiros, estamos falando aqui de preservação do recurso natural mais valioso que temos. Infelizmente, me parece que muitos gestores estão olhando para o lado de aumento de oferta de água, mas poderiam olhar uma forma mais eficiente de reduzir o consumo, ou seja, incentivar que cada um pague o que consome.

É preciso ter consciência que hoje, no Brasil, água ainda custa pouco, mas em um futuro próximo custará bem caro. Em São Paulo, por exemplo, pagamos basicamente só pela captação, tratamento e serviço de distribuição de água.Mas em breve pagaremos por isso e pela água em si. Então, a reeducação tem que ser feita agora para que as futuras gerações não paguem um preço alto demais, tanto em termos financeiros quanto sociais. De acordo com a Sabesp, a disponibilidade hídrica da região metropolitana de São Paulo é 200 m³/ano, que é equivalente a 1/10 do recomendado pela ONU. O problema não está lá na frente, ele está aqui e agora.

* Eduardo Lacerda é diretor geral da Techem no Brasil.

Tags: água, consciência, no brasil, preciso, que hoje, ter

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