Jornal do Brasil

Segunda-feira, 21 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Joaquim Barbosa e Mandela

Siro Darlan*

A humanidade perdeu uma referência moral, política e ética. Após passar 27 anos preso por um regime político injusto e odioso, Mandela saiu de seu isolamento forçado para unir sua pátria abolindo o apartheid sem qualquer rastro de ódio. A pátria brasileira, a maior nação com população negra fora da África, homenageou o grande líder com uma comitiva de quatro ex-presidentes e a própria presidenta Dilma. 

A diplomacia brasileira não foi feliz ao excluir a maior autoridade negra brasileira dessa delegação, o ministro Joaquim Barbosa. E não foi feliz, sobretudo pelas causas dessa exclusão, que, ao contrário de Mandela, foi colocar acima da nobreza que deve ser a marca da diplomacia a odiosa e injusta vingança. Além de mais alta autoridade negra de um país de maioria negra, Joaquim Barbosa honrou a toga presidindo o maior e mais importante julgamento político da história do Brasil. 

Como dizia o ex-presidente Lula, nunca antes neste país tantos políticos foram julgados e condenados por um tribunal na mais alta expressão de uma República democrática. Não entro no mérito do resultado desse julgamento histórico, porque aqui não cabe. E certamente seu resultado, como todo julgamento, deve ter contrariado interesses e pessoas, sobretudo os condenados, seus familiares, amigos e parceiros de empreitada política. 

Nós, os juízes, escolhemos uma profissão nobre e difícil de julgar nossos semelhantes com toda nossa fabilidade.  Portanto, o nico patamar que nunca atingiremos será a perfeição de nossas decisões, mas nossa obrigação não é essa, e sim fazer o melhor que pudermos. A perfeição somente a Deus pertence. 

É humano aceitar que a presidenta Dilma e seu guia e mentor Lula não tenham gostado do resultado do julgamento presidido por Joaquim Barbosa, mas excluí-lo da homenagem ao maior ídolo negro na história moderna foi um erro político muito grave. Afinal, Mandela, o homenageado, viveu e morreu, sem se deixar abater pelas perseguições e punições injustas que sofreu, convivendo respeitosamente com seus julgadores e carcereiros, sempre com espírito de bondade, lucidez para unir o seu povo e não se deixar levar pelo espírito belicoso de alguns parceiros.  

Mandela sempre demonstrou absoluto apego ao que era legítimo e nunca transigiu com a legalidade, nem com seus companheiros mais próximos. Por isso mesmo atraiu com seu exemplo a simpatia de todos os que o escutamos falar, quem apertou sua mão e aprendeu com seu exemplo de vida. Excluir o ministro Joaquim Barbosa foi uma contradição aos ensinamentos do ilustre homenageado. Que viva Mandela!

*Siro Darlan Oliveira, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, é membro da Associação Juízes para a democracia. - sdarlan@tjrj.jus.br 

Tags: a diplomacia, a maior, ao excluir, autoridade, brasileira, não foi feliz

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