Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

As quatro tentações que nos induzem ao erro

Orlando Oda*

Alguns anos atrás, li no livro A prosperidade está na mente, do professor Katsumi Tokuhisa, sobre “as quatro tentações de Satanás”. Desde então, toda vez que sou tentado a justificar algum meio para buscar resultados fáceis e rápidos, procuro relembrar estas lições. Diz o autor que Satanás tem quatro tentações para fazer as pessoas cometerem pecados.

A primeira tentação é “todos fazem isso”. É uma forma de dividir a culpa com outras pessoas e diminuir a sua parte. Misturada no meio de muitos, há a sensação de anonimato, que faz a culpa se sentir menor. As pessoas pacíficas no meio da multidão ficam violentas. As pessoas escondidas no anonimato das máscaras também ficam. É a forma para justificar um ato que fere a nossa consciência. Mesmo quando todos praticarem, o errado continua sendo errado.  

A segunda tentação é “é um ato sem importância”. Quando qualificamos que um ato é sem importância, diminuímos o nosso sentimento de culpa. É o passo inicial para adquirimos mau hábito. Só aprendemos a dar o segundo, terceiro passo depois que damos o primeiro passo. É o começo para repetir condutas erradas. Inicia com pequenos atos ilícitos que acabam levando para erros cada vez mais graves. Por menor que seja, o que é errado é errado, por isso todo cuidado é pouco.

A terceira tentação é “é só uma vez”. O problema é que, se fizermos algo errado pensando que é só esta vez, seremos levados a repetir o erro pensando “já que errei uma vez, não haverá diferença se errar novamente”. Na primeira vez agimos temerosamente, mas na segunda, terceira, sentimos cada vez menos temor. Logo, a nossa consciência estará anestesiada e livre para praticar atos bem mais ousados.  

Nas primeiras vezes os atos errados incomodam a nossa consciência, mas com as repetições passaremos a não sentir remorso como se estivéssemos fazendo algo normal. É como uma mentira que contamos várias vezes. Na vigésima primeira vez, já não sabemos se estamos contando uma mentira ou uma verdade. Por isso, é necessário resistir pensando firmemente: não importa se seja uma vez, o que é errado é errado.  

A quarta tentação é “ainda tenho muito tempo pela frente”. Muitas pessoas caem nesta armadilha pensando que têm muito tempo pela frente para retificar o erro, agir corretamente.  Está desperdiçando a coisa mais preciosa que recebemos da natureza: o tempo, ou seja, a vida. Além disso, o tempo é a coisa mais justa que existe no universo. Toda pessoa, sem exceção, tem as mesmas vinte e quatro horas por dia, seja rico ou pobre, adulto ou criança, preto ou branco. Portanto, não há como utilizar a falta de tempo como justificativa.  

Se fizermos uma pequena conta, veremos que temos poucas horas de vida. Supondo que iremos viver 80 anos, são 700.800 horas (24 x 365 x 80), que não é a expectativa média de vida dos brasileiros. Considerando que dormimos oito horas por dia na realidade são 467.200 horas. Aprenda a administrar o tempo, seja organizado e racional. Não há tempo a perder. 

Se considerarmos somente as horas trabalhadas, são pouco mais de 120 mil horas (desconta os finais de semana e feriados, faz de conta que trabalha em média 10 horas por dia por 40 anos). O tempo passa rapidamente. Há atividades que só podem ser realizadas enquanto jovens. Com o passar do tempo, se tornam cada vez mais difíceis por limitações físicas, compromissos familiares, profissionais, etc.

 A forma de não cair nas tentações é utilizar a técnica do tear. O tear é uma ferramenta simples que faz o entrelaçamento de dois conjuntos de fios: trama e a urdidura que gera o tecido como resultado. Urdidura são as linhas guias no sentido vertical. A trama são os fios que são passados entre os fios verticais (urdidura) no sentido horizontal. 

As nossas decisões e ações são as linhas que compõem a trama que tece o tecido. O tecido é o resultado obtido através das nossas ações. Se estiver firmemente amparado pelas linhas da urdidura, o resultado será um tecido bonito, bem acabado. As decisões e ações que tomamos devem ser guiadas pelas linhas mestras da vida: princípios e valores verdadeiros.

Nem sempre percebemos claramente o enredo ou trama da vida. As tentações podem querer apontar os caminhos mais fáceis, rápidos, porém escuros e cheios de buracos. Para não cairmos no buraco necessitamos da linha guia para nos conduzir para caminhos iluminados. Lembrar sempre do tear: os fios horizontais guiados pelo fio vertical da retidão gera o tecido e nela faz aparecer os lindos desenhos.

Não há como consertar atos errados. Erros ficam registrados na linha do tempo para sempre. Os erros ocultos transformam na dor de consciência ou pecado. O pecado está associado ao resgate pela dor ou sofrimento. Enquanto mantiver oculto o sentimento de pecado, inconscientemente faz o resgate através da dor. É muito fácil criar a dor. Basta um insucesso ou uma doença. É a causa do fracasso de muitos empreendimentos e pessoas.

Para aqueles que acreditam na lei do carma ou na lei de causa e efeito é mais fácil compreender: a causa da dor, do fracasso, da doença está no sentimento de erro guardado. Erro oculto transforma em pecado. Para se libertar precisa exteriorizar através do perdão, confissão, arrependimento ou sessão de psicanálise, cirurgia para extrair algum órgão, perda de dinheiro, etc. Creio que seja melhor colocar em prática o ditado: “é melhor prevenir do que remediar”. Não adianta colocar a tranca depois de a casa ser arrombada.

* Orlando Oda, administrador de empresas, com mestrado em administração financeira pela FGV, é presidente do Grupo AfixCode.

Tags: aberta, Artigo, coluna, JB, pecado, Sociedade

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