Jornal do Brasil

Quarta-feira, 16 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Felicidade perdida

Rosineia Oliveira dos Santos*

Já dizia o escritor Guimarães Rosa: “Felicidade se acha em horinhas de descuido”. A verdadeira felicidade não se desenha com belas paisagens, como definiu o filósofo Rousseau, não pode ser descrita, ela é sentida. E acrescenta: ela é plural, só tem sentido nas diferenças.

A felicidade não necessariamente é motivo de prazer, mas sempre é um caminho para crescimento. Quase sempre, a ideia de felicidade vem como presença, raramente nos vem como possibilidade de ausência. O pensador genebrino Jean-Jacques Rousseau dizia: “A espécie de felicidade de que preciso não é tanto a de fazer o que quero, mas de não fazer o que não quero.

Já pensou em morar em uma ilha onde o lema dos moradores é “viver bem é a maior arte e dividir é a melhor parte”? Creio que seria sonho, não é mesmo? Esse lugar só poderia chamar-se mesmo felicidade. Por isso é impossível desvincular felicidade de liberdade, algo descrito há muitos anos e que até hoje procura-se para ela uma definição. Felicidade não é só a presença daquilo que se quer, mas também a condição de recusar, dizer não, muitas vezes isso alegra a alma.

André Gide, poeta e pensador francês do século 20, dizia que “passamos três quartos da vida a preparar a felicidade, mas não se deve crer que, por isso, passamos o último quarto a gozá-la”. Com tal colocação esse mestre nos faz questionar: que felicidade pode existir na maldade intencional, deliberada e dolosa? Jean Rostand dizia que “refletir é desarrumar os pensamentos.

Há pessoas que “dirigem” sua vida, sua história, com um para-brisa pequeneninho e um retrovisor imenso. Ficam o tempo todo olhando o que já foi, como sendo o modo como as coisas têm de se repetir. E aí não conseguem viver aquilo que virá. São aquelas que leem as mesmas coisas, fazem do mesmo modo, agem da mesma maneira.

E para fecharmos esse diálogo, deixo a interpelação: o que é a felicidade perdida? Será que é demonstrar, sentir e ir além do seu ser? Trago Agostinho de Hipona, teólogo do século V, que dizia “Quando dois presos olham pelas grades o lado de fora, um deles olha a lama no chão e o outro olha as estrelas.

A expectativa, vez ou outra, ultrapassa a vivência.

* Rosineia Oliveira dos Santos, professora, é especialista em psicologia. - organizacionalolisanta@ gmail.com 

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