Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Mandela: um legado de valorização dos direitos humanos 

Roberto Gondo*

Muitos pontos foram abordados acerca de Nelson Mandela desde seu falecimento. Todavia, é pertinente observar os impactos políticos e sociais que foram conquistados nas décadas de luta quanto aos ditames por ele reivindicados. Não é exagero dizer que sua figura está entre os últimos elementos sociais que romperam conceitos paradigmáticos hediondos e totalmente desrespeitosos contra a sociedade. 

O modelo do Apartheid explicitamente fomentava uma discrepante hostilidade étnica, e seu fim foi uma conquista altamente impactante, não somente para o continente Africano mas para todo o planeta, fortalecendo o direito de integração social e racial em busca de sociedades mais equilibradas e sustentáveis. A lógica e origem do Apartheid, de vidas separadas, é um passado triste mas distante da sociedade contemporânea global e com chances remotas de um dia voltar a rondar os lares sul-africanos.  

A África do Sul durante décadas foi simbolizada por esse comportamento social, de preconceitos exacerbados e medidas distintas para cidadãos de raças diferentes. No mundo, outros países passaram por situações similares, mas na população sul-africana a organização em torno desse tipo de comportamento ganhou ares mais explícitos e difundidos pelo mundo.  

As homenagens feitas para Mandela pelo seu povo demonstram uma sociedade sul-africana ainda carente de inúmeras políticas públicas eficazes, mas com uma gratidão sem precedentes pelo seu líder e mentor de uma sociedade livre de retaliações por decorrência epidérmica. Como figura chave da Organização das Nações Unidas (ONU), Mandela sempre simbolizou a luta por ideais de justiça e melhores condições de vida. Sua atuação corroborou para amenizar inúmeros outros conflitos internacionais, e, indubitavelmente, fará falta para o quadro de personalidades de trânsito político no contexto global.  

No seu período pós-prisão, de mais de duas décadas, e já na figura de presidente do país, conduziu políticas inclusivas e conquistou indicadores sociais mínimos para uma população predominantemente pobre, onde o êxito e recursos se concentravam e ainda se concentram nas mãos de poucos. Foi responsável pela consolidação de partidos políticos e acompanhou o amadurecimento democrático no país, com a criação de novas agremiações e dinamizando mais o senso competitivo eleitoral.  

Em um cenário atual, o atual presidente da África do Sul, Jacob Zuma, não está em boa relação política com a sociedade, decorrente de indícios de corrupção em seu governo e práticas consideradas aderentes com a lógica de improbidade administrativa. Nesse cenário, outras lideranças surgirão, e a tendência de instabilidade e temor de um novo momento politico no país pode ocorrer nos próximos meses.

Logicamente, em um grau de intensidade plausível de ser contornado e com características típicas de democracias de países em desenvolvimento. Remotamente, a África do Sul retrocederá nas suas conquistas de voto e representação popular. Esse fato se tornou explícito pelo modo demonstrado pela população na figura de Zuma. Apesar de um país ainda carente de recursos e distribuição de riqueza, a sociedade informacional contribui incisivamente para o compartilhamento de notícias, permitindo uma população mais ativa e disposta a reivindicar por direitos melhores.

É interessante e necessário acompanharmos o decorrer dos acontecimentos na África do Sul e dos possíveis impactos gerados pela ausência de Mandela na moderação dos países do continente. A África perde um grande líder, mas os seus princípios ficarão intrinsecamente ligados com a democracia e luta pelos direitos humanos. Que essa trajetória de luta e dedicação em prol de uma sociedade mais justa possa inspirar outros países e líderes na condução de melhorias para os seus respectivos povos. Obrigado, Mandela!

* Roberto Gondo, doutor em comunicação política, é professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e presidente da Rede Politicom.

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