Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Casar-se com alguém inútil

 David Eduardo Luzetti Filho*

Nos dias de hoje, sob a égide do pragmatismo, chamar alguém de inútil soa como ofensa. No entanto, segundo a filosofia antiga, inútil tem um valor afirmativo e se faz necessário redescobrir seu sentido hoje, principalmente para escolher alguém que deseja viver para sempre ao seu lado.

Pragma, do grego, significa til. Ou seja, um valor para outrem. Em contrapartida, inútil, um valor em si mesmo. Uma mesma pessoa pode ser considerada til para alguns e inútil para outras. Afinal, como diz um provérbio: “não há ninguém que seja tão rico que não tenha nada para receber, e ninguém tão pobre que não tenha nada para dar”. Todos os homens possuem algo para oferecer. No entanto, qual é o problema? É a subversão axiológica. Ou seja, a primazia deve ser o que a pessoa é e não o que ela faz. Quando convivemos com uma pessoa que é útil para nós, quando a mesma deixar de ser útil, será descartada.

Ilustrando: não se deve (quando se tem a pretensão de querer alguém para a vida toda) estar com alguém simplesmente pelo carro, dinheiro, que ele/ela possui ou até mesmo pelo prazer que pode proporcionar, pois todas estas coisas são efêmeras e um dia passarão. Deve-se estar com alguém pelo que ele é em si mesmo, independentemente das coisas que tenha e faça por você (pois o inútil pode, e muitas vezes até deve, fazer inúmeras coisas pelo companheiro). Deste modo, mesmo se o outro vier a deixar de produzir, ser til, o primado do ser prevalecerá, ou seja, o mais importante é o valor que tem em si mesmo, independentemente do reconhecimento que se tem de todos os atos ou não. Com certeza, é a partir da falta destes conceitos que raramente se veem hoje casais de idosos, eternos companheiros, pois os relacionamentos se tornaram descartáveis.

Por fim, seja inútil! Isso mesmo... Que alguém o ame pelo que você é e não pelo que tem ou pode fazer. Não se preocupe em conquistar o/a pretendente pelos seus atributos, mas por sua essência, pelo o que você é. Só assim faz sentido alguém ao lado para a vida toda. Caso contrário, não case... Use e seja usado. Só assim é coerente.

* David Eduardo Luzetti Filho é professor de filosofia na cidade de Mogi-Guaçu, interior de SP.

Tags: de todos, do, independentemente, que se tem, reconhecimento

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