Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

A aula de amanhã

Arnaldo Niskier*

Vieram  os resultados do Pisa 2013 (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes 2013), e soubemos que o Brasil melhorou a sua performance em matemática, mas não prosperou em ciências e leitura.  Ficamos ainda longe dos países desenvolvidos, precisando avançar muito mais nas disciplinas essenciais da sociedade do conhecimento.

Não se tem muita certeza a respeito das razões pelas quais tantos jovens abandonam o ensino médio. Nem se sabe ainda, com segurança, por que 2 milhões de inscritos nos exames do Enem deixaram de comparecer às provas. O que se desconfia é que há um certo enfado com relação ao modelo de aprendizado. As aulas dos nossos professores, em geral lineares, deixaram de despertar o entusiasmo de outrora. A utilização da informática, como elemento motivador, ainda não passa de quimera inatingível, para a grande maioria das escolas.

O MEC distribuiu milhares de tablets por aí. De forma desordenada. Sem ter antecedido o processo do indispensável treinamento dos mestres. Muitos estabelecimentos de ensino transformaram-se em cemitérios de tablets, inclusive porque eles não têm um mínimo de manutenção. Tornou-se moda falar de computadores, tablets e smartphones (IOS e Android). O que isso representa na prática?

As aulas de ciências, matemática, geografia, biologia e química, com as características de interdisciplinaridade, poderiam ser muito enriquecidas com produtos eletrônicos. É evidente que a tecnologia aplicada em sala de aula contribui para melhorar a interação de professores e alunos. Já não constitui grande mistério conectar o computador ou o tablet do professor aos equipamentos dos seus alunos ou à simples lousa eletrônica, o que já seria um grande avanço. Mas isso ainda é a realidade de uma pequena minoria e em geral de escolas particulares. Na escola pública é uma raridade.

Sabe-se que as provas do Pisa de 2015 serão eletrônicas. Vai-se avaliar o desempenho em leitura, matemática e ciências de estudantes de 15 e 16 anos, matriculados no ensino regular, público ou particular, de 65 países, inclusive o Brasil, que não tem brilhado nos exames anteriores. O que nos espera, se mantivermos o quadro na atual configuração de dicotomia entre a escola tradicional e o ensino do futuro?

Numa escola de primeira classe, na Zona Sul do Rio, é proibido aos alunos usar o computador em sala de aula. Só os professores podem (de nove, três empregam, sendo um deles de língua portuguesa). Estamos nos referindo ao 9º ano do ensino fundamental. Ao consultar uma aluna de 13 anos, muito interessada, dela ouvimos uma queixa sofrida: “A gente gostaria tanto de empregar o computador. Se o professor não sabe, o problema é dele”. Ela exemplifica com o tempo que perde o mestre de geometria, desenhando na lousa. Como se vê, ainda falta percorrer um longo caminho de aproveitamento das maravilhas do desenvolvimento científico e tecnológico. A começar pelo que já se pode fazer nas nossas salas de aula.

*Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras e doutor em educação, professor de história e filosofia da educação, é presidente do CIEE-RJ e autor  do livro 'Memórias de um sobrevivente' .   aniskier@openlink.com.br 

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