Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Não existe conflito de gerações

Alexandre Prates*

Nos ltimos cinco anos, convivi de perto com esse tão aclamado discurso sobre o conflito de gerações no mercado de trabalho. Confesso que durante algum tempo me convenci de que o fenômeno realmente existia e me dediquei a trabalhar esse conflito nas organizações. Mas a experiência e as inúmeras conversas com os profissionais das mais diferentes gerações me ajudaram a clarificar a percepção e concluo, sem qualquer receio: o conflito está na liderança. 

 Um conflito ocorre quando temos opiniões divergentes, defendemos causas opostas ou queremos coisas diferentes. Analise um cenário comigo: A famosa Geração Y foi amplamente estudada, e alguns conceitos se apresentaram sobre o perfil desses jovens. Chegou-se à conclusão de que tal geração deseja trabalhar em uma empresa que lhes proporcione reconhecimento, oportunidade de crescimento, metas claras e desafiadoras. Além disso, querem sentir-se parte e, a partir do seu trabalho, conquistar um padrão de vida superior.  

Também fica claro que é uma geração que não aceita trabalhar insubordinada para qualquer um, não aceita a maioria das regras, procedimentos e planos de carreiras fantasiosos que as empresas praticam e não pretendem ficar anos na mesma corporação só para um dia, talvez, subir de cargo. Face a isso, reflita comigo: a Geração X quer alguma coisa diferente disso? É claro que não! Todos, independentemente da geração, queremos uma empresa que nos valorize, que nos dê oportunidade de aprender, crescer e contribuir e que, acima de tudo, reconheça a minha atuação e os resultados conquistados. 

 A nova geração de profissionais quer mais das organizações do que as gerações passadas. Uma pessoa com 50 anos hoje pensa, deseja e age diferente de uma pessoa que tinha esta mesma idade há 20 anos. Logo, a empresa que construir um ambiente saudável, que permita às pessoas serem elas mesmas e colocar o seu melhor em jogo, certamente não terá conflitos. Ouço dizer inúmeras vezes que a Geração Y é menos comprometida com as empresas e mais focada em suas carreiras, que não respeitam a hierarquia e que não valorizam as oportunidades oferecidas. Concordo que muitos profissionais são assim, mas não apenas as gerações mais jovens. A Geração Y é tão descontente com as empresas quanto a X ou qualquer outra geração. 

A questão é que as pessoas com mais idade, naturalmente, assumiram mais responsabilidades na vida – pagam aluguel, têm filhos, sustentam uma família – logo, não podem perder o emprego. As gerações são diferentes, mas não nos seus anseios e, sim, nas suas competências, no seu modo de ser e agir. Você, líder de uma geração mais jovem, deseja a mesma coisa que eles. A questão é que a vida lhe trouxe maturidade, experiência, conhecimento, virtudes que lhe permitem agir com maior ponderação e assertividade. E hoje, na liderança, você se depara com profissionais que desejam chegar ao seu patamar, mas que possuem, é claro, um tempo de vida que não lhe permite enxergar o que você (hoje) enxerga. Portanto, uma pergunta se faz fundamental: onde está o conflito de gerações? O conflito está na liderança, na maneira como eu compreendo as inevitáveis diferenças e ajo diante delas. 

O conflito é minimizado ao passo que você investe em duas ações cruciais na organização: 1.  Invista na educação das pessoas Isso mesmo, na educação! Nós, líderes, precisamos compreender que estamos diante de um déficit educacional no Brasil. As escolas nunca foram tão precárias, logo, os jovens saem do ensino básico sem aprender o básico. As universidades formam técnicos sem qualquer noção de mercado e visão de carreira. Os pais, cada vez mais ausentes, terceirizaram a educação de seus filhos. Como consequência, os jovens chegam ao mercado de trabalho cada vez menos preparados cientificamente, profissionalmente e, principalmente, moralmente. 

Então, compreenda que o líder que não dedicar tempo e energia na educação dos jovens profissionais continuará reclamando e colhendo os frutos de uma gestão que não acompanha as mudanças. Permitam-me não entrar na discussão se educar é papel ou não do líder, mas não posso me furtar em dizer que, independentemente se você concorda ou não, educar as pessoas é uma atribuição que você não pode deixar de exercer com afinco. O tempo que você dedicar ensinando as pessoas sobre carreira, mercado, estratégia, resolução de problemas retornará a você como resultado. A energia que você dispensar participando as pessoas das decisões será recompensada com o engajamento. 

O seu desprendimento em dar feedback, elogiar, reconhecer, conversar será valorizado com a evolução do seu time. Agora, se você me perguntar qual é o maior de todos os ensinamentos que você pode trazer para as pessoas, eu elegeria um como primordial: VALORES. Quanto mais firmes estivem os valores de uma pessoa, mais claro estarão para ela os motivos pelos quais vale a pena se entregar a um projeto, a uma empresa e quão gratificante é lutar por alguma coisa em que se acredita. 2. Invista na evolução da sua gestão O modelo de gestão da empresa e a maneira como a liderança dissemina essa cultura são os maiores causadores dos conflitos internos, principalmente nas organizações que operam por processos rígidos e que possuem uma hierarquia engessada, que desmotiva uma geração (independentemente da idade) que deseja liberdade de atuação e participação. 

As empresas precisam se reinventar e quebrar os padrões hierárquicos que inibem uma participação ativa e engajada. As pequenas e médias empresas saem na frente nesse quesito devido a sua estrutura enxuta e conseguem oferecer uma participação mais efetiva e colaborativa, pois a facilidade de administrar os processos e decisões permite aos profissionais envolverem-se em diversas áreas e setores da organização, podendo, inclusive, serem ouvidos nas decisões. O grande choque é cultural, pois a liderança e, como consequência, as organizações, não evoluíram na velocidade que o mundo corporativo e as novas gerações têm exigido. Por fim, esteja perto do seu time. 

A distância aumenta o conflito e afasta qualquer possibilidade de alinhamento de pensamento e valores. Faça valer a sua experiência e conquiste as pessoas. Você, líder, seja um coach para a sua equipe. Transmita experiências e extraia o melhor de cada um, permitindo a eles participar, contribuir e crescer. 

 * Alexandre Prates, especialista em liderança, desenvolvimento humano e performance organizacional, é master coach, palestrante, sócio-fundador do ICA (Instituto de Coaching Aplicado) e sócio do Grupo Alquimia, consultoria especializada em franquias. É dele o livro 'Reinvenção do profissional - Tendências comportamentais do profissional do futuro'

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