Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Dezembro vermelho

Vanderson Carvalho Neri*

O mês de dezembro se inicia e no primeiro dia é lembrada, no mundo todo, uma data importante, que vem ganhando cada vez mais espaço na mídia internacional. Dia primeiro é o Dia Mundial da Luta contra a Aids, data já instituída pela OMS há mais de uma década no calendário da saúde internacional. Nessa data é que fitas e bandeiras vermelhas (cor da campanha) ganham as ruas e as propagandas em revistas, cartazes e outdoors mundo afora.

O vermelho simboliza a luta, mas também as mortes provocadas por essa pandemia, e já são mais de 21 milhões desde os primeiros casos, nos anos 80. Nesta data, as organizações mundiais costumam divulgar os balanços epidemiológicos da doença, e neste ano não foi diferente: cerca de 40 milhões de infectados no mundo, a maior parte na África subsaariana, 718 mil só no Brasil, já sendo considerada a quarta causa de óbito no mundo.

A diferença no Brasil este ano foi que o Ministério da Saúde decidiu oferecer as drogas antirretrovirais (que impedem a multiplicação do vírus) a todos os adultos infectados, independentemente do estágio da doença e da contagem de células CD4 (células de defesa que são suprimidas pela infecção do vírus, e marco laboratorial da imunodepressão). A diferença é que, anteriormente, a medicação só era prescrita para pacientes com queda nos valores do CD4.

Atualmente, cerca de 313 mil pessoas recebem os medicamentos gratuitamente distribuídos pelo SUS. Com essa nova portaria, mais de 100 mil pessoas devem ser incluídas nesta lista de prescrição. Trata-se de uma estratégia para tentar coibir o avanço da doença, aumentar a sobrevida dos pacientes e também uma “proteção” para a sociedade, sobretudo entre casais sorodiscordantes: com uma menor carga viral circulante na corrente sanguínea, menor a chance de um portador do vírus perpetuar a infecção.

No entanto, tratamentos muito precoces podem gerar efeitos colaterais importantes no indivíduo, que usarão a medicação a longo prazo. Além disso, acredita-se que essa medida possa favorecer o uso irregular da medicação, o que pode promover “resistência” do vírus aos medicamentos, graças a rápidas mutações que este é capaz de apresentar.

Outro aspecto relevante é que mesmo em tratamento regular, seja precoce ou não, o indivíduo que apresente o vírus possui potencial risco de perpetuação da infecção para os contatos íntimos. Não se pode criar uma falsa expectativa de que só por haver tratamento regular e com o vírus circulante em baixa no sangue pode-se relaxar no manejo da prevenção. Por isso, considera-se, sempre, de fundamental importância, a contínua orientação e educação da população a respeito da doença, de seus estágios, mecanismos e de sua forma de contaminação e prevenção.

Embora vivamos em uma década em que os números de mortes estão estabilizados ou até em queda na maior parte dos estados, a Aids ainda é uma realidade em nosso país, e que precisa de atenção. Ainda (e por muito tempo) precisaremos orientar e estimular  a prevenção de nossa população. Mais que um problema de saúde pública, a doença traz consigo um importante impacto social e psíquico para o indivíduo, o que se reflete na família e na rede social da pessoa. O empenho para a prevenção, controle e tratamento da Aids não é somente do Estado. Cidadãos, profissionais e instituições (sejam públicas ou privadas) devem estar atentos às necessidades reais do momento, por se tratar de um assunto de interesse geral.

Estar engajado nessa causa é uma obrigação de toda a sociedade, é uma tarefa diária, uma luta constante, por melhorias na qualidade de vida dos pacientes, por melhor acesso aos serviços de saúde especializados e pelo combate ao estigma e preconceito, e não somente atos enquanto durarem os comerciais na mídia local, como frequentemente tem acontecido.

* Vanderson Carvalho Neri é médico neurologista. - vandersoncn@yahho.com.br

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