Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Instruções para o meu funeral

Felipe Pena*

Pois é, meu amigo, se você está lendo essas linhas, tenho a impressão de que não poderei ouvir sua voz de barítono libanês. Morrer não é difícil. Difícil é ficar aqui deitado, com algodão nos ouvidos, tentando adivinhar o que estão falando em volta de mim. Por motivos óbvios, também não sou capaz de fazer leituras labiais e essas flores me dão uma alergia danada. O único sentido que me resta é o tato. Portanto, se não for muito assustador, coloque a mão no meu ombro para que eu possa perceber o timbre de suas palavras.

Pra começar, diga aos presentes que não estou de acordo com isso. Por mim, a festa não teria hora pra acabar. Quem inventou a morte não sabe o que é viver. Quem inventou a morte não sabe o que é a brisa lateral da praia do Pepê, o chope com os amigos do colégio, o futebol no domingo, a pele feminina molhada de suor. Quem inventou a morte não conhece a poesia do Rilke, os romances do Saramago, as sonatas de Chopin, a guitarra do Hendrix, os quadros do Portinari, o cinema de Fellini. Quem inventou a morte é um ignorante. Um tremendo ignorante.

Não sei se fica bem confessar, mas tenho alguns arrependimentos. Quais são, mesmo? Deixe-me ver! Tá difícil de lembrar. Memória de morto não é das melhores, meu amigo. Peça ao padre aí do lado pra me perdoar a crédito ou AD HOC, sei lá. Também não me incomodo se houver um rabino, um pastor ou um pai de santo. Na dúvida, prefiro estar de bem com todos. Shalom, amém e saravá.  Ah, lembrei! Sabe uma coisa da qual me arrependo? Filtro solar. Passei a vida toda usando esse creme pastoso e agora pergunto: pra quê? Olha só a minha cor! Podia, ao menos, restar um bronze nessa face amarela. Vou te contar uma coisa, meu amigo: na próxima encarnação, não usarei filtro solar nem morto.

Por falar nisso – na reencarnação, não no filtro – quero dizer que sou brasileiro e não desisto nunca. Portanto, eu acredito. Se houver uma maternidade por perto, corre pra lá. O primeiro bebê que chorar fora do tom e piscar pra enfermeira tem altíssima probabilidade de ter recebido este espírito cambaleante, cujas passagens pela Terra devem se repetir muitas vezes antes de alcançar a iluminação. Pelo menos, é o que eu espero. A luz pode ficar para o fim do túnel, não tenho pressa. Quero ser repetente nessa escola, meu amigo.

A verdade é que, se pudesse nascer de novo e me dessem opção, escolheria a mesma família, os mesmos amigos, a mesma profissão. Nada me dá mais orgulho do que ser filho de Seu Antonio e Dona Josefa. O mais próximo que estive da dignidade devo a esses dois imigrantes, cuja saga ultramarina merecia um filme. Eles também me deram essa baixinha que está ao seu lado com meus sobrinhos. Aliás, meu amigo, se alguém quiser te proibir de ler esta carta, fale com ela. Aposta a alma que nem um pelotão do Bope a impediria de realizar o desejo do irmão.

Mas vamos voltar às instruções. Dê uma olhada em volta. É possível que você reconheça algumas faces morenas – ou loiras, ou ruivas, ou as diversas combinações juntas. Todas foram importantes. Faça chegar essa informação a cada uma, sem restrição. E, se entre elas, estiver a mulher que eu ainda amo, diga que é tudo mentira, que nunca houve amor, que nunca houve festa. Diga que ela precisa botar o melhor vestido, o melhor sapato, o melhor batom. E sair pela avenida na quinta marcha. Diga que precisa sorrir, que precisa dançar, que precisa correr. Não a deixe perder tempo, nem se perder, no tempo.

 Os bons companheiros dessa jornada alunos, amigos, leitores – talvez estejam por perto. Eles foram a razão de tudo. Agradeça por mim. Se conseguir juntar meia dúzia, você já terá número suficiente para segurar nas alças. Mas, antes, não se esqueça de me cobrir com a bandeira do meu time e de colocar um exemplar do Cervantes para me fazer companhia. Na dúvida, deixe também um telefone celular com a bateria carregada. Prometo não ligar.

Um pouco antes do fechamento, faça um círculo e leia esta carta. Use sua melhor entonação, aquela que você aprendeu nas aulas do Tablado. Encha o pulmão de ar, respire e solte o tom grave de cada sílaba. Confio no seu talento. Você foi e sempre será o melhor de nós. Ninguém pode negar isso.

Não tenho medo, meu amigo.

Não é a morte que me assusta, é o esquecimento.

Mas enquanto houver um leitor, ainda terei a esperança de ser lembrado. Uma parte de mim foi literatura. A outra parte são vocês.

E que fique bem claro: a melhor parte são vocês.

Sempre, a melhor parte foram vocês.

* Além de jornalista e psicólogo, Felipe Pena é doutor em literatura pela PUC, pós-doutor pela Sorbonne, professor da UFF e autor de 15 livros, entre eles a coletânea de crônicas 'Beijo na testa é pior do que separação'.

Tags: botar o, diga, ela, melhor, precisa, que, vestido

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.