Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Eternos iludidos

Vitor Sapienza*

A exemplo do que ocorre todos os anos, logo veremos nos meios de comunicação, principalmente na TV, videntes, numerólogos, líderes religiosos, quiromantes, cartomantes e leigos fazendo previsões para o ano que chega. Para quem acredita, essas previsões, muitas vezes reforçadas com algumas simpatias comuns nessa época, podem até representar o norte para as ações que serão desenvolvidas no cotidiano dessas pessoas.

Desde pequenos fomos incentivados a acreditar em algo superior, em uma força suprema que manda nos nossos atos. E isso se destaca no final do ano, quando o espírito religioso e os sintomas de solidariedade se acentuam. No entanto, vamos nos tornando mais críticos quanto às nossas crenças, e em alguns casos avessos a muitas coisas que nos foram impingidas ao longo do tempo. Muitas vezes isso ultrapassa o sentimento religioso, e nos torna até um pouco ácidos quando manifestamos as nossas opiniões sobre alguns assuntos.

É nessa época que os meios de comunicação procuram consultar alguns especialistas e autoridades sobre determinados assuntos, principalmente da área econômica, sempre com os olhos no futuro do país. Não sei se com intuito de fazer sensacionalismo, ou em busca de alguns minutos de fama, muitos desses entrevistados fazem análises sem conteúdo, que são divulgadas aos quatro cantos, como se uma nação inteira precisasse dessas opiniões.

Cozinheiros de terceira categoria ou aprendizes de feiticeiro conquistam espaço na mídia e, nos quinze minutos de fama distribuem informações muitas vezes nada condizentes com o mundo real. E todos os anos lá estão eles, não porque teriam acertado a previsão, mas por terem coragem ou petulância de ir a público repetir o imponderável.

Em um mundo em que as informações são transmitidas em tempo real, a competitividade nos meios de produção exige mão de obra cada dia mais especializada, a tecnologia caminha para que a máquina supere o ser humano, falar em previsões soa como curandeirismo moderno, onde a palavra se expande mas não encontra eco. Assim, qualquer que seja a opinião do cozinheiro consultado, seguramente a sua receita não será aprovada no seleto grupo de famintos por novas perspectivas. E esses famintos estão em todas as camadas sociais. A diferença é que alguns esperam grandes investimentos do governo, outros querem a redução dos gastos do governo, queda na tributação; alguns falam em estabilidade econômica, redução da violência, melhoria da saúde e transporte pblico.

Como se vê, é um leque bastante amplo, sempre respaldado em um termo que há muito habita os nossos dias, e que tem uma tradução muito simples: indignação, resultado de muitos anos de otimismo, décadas e mais décadas de fé e uma vida inteira de frustrações, embora muitas das previsões tragam um pouco mais de otimismo, como é normal nesses dias de festa.

*Vitor Sapienza, deputado estadual (PPS), ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, é economista e agente fiscal de rendas aposentado. - www.vitorsapienza.com.br

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