Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

O Rio de Janeiro e a segurança turistica 

Bayard Do Coutto Boiteux*

Moro numa das cidades mais lindas do mundo. Aprendi a respeitá-la e amá-la ao longo da minha vida. Sou grato por ter me proporcionado experiências sensoriais, afetivas e de trabalho, que me ajudaram a entender melhor o mundo e a diversidade. No entanto, vivo numa cidade cheia de contradições, em âmbito social, econômico e turístico. 

Meu coração fica apertado quando me dou conta de que há muito por fazer, às vezes de forma tão simples, e faltam apenas pequenos ajustes no planejamento e no orçamento. Entendo também que poucos empresários do setor ou lideranças turísticas lutam por uma cidade mais sustentável e são verdadeiramente críticos de um sistema, preferindo divulgar índices de ocupação hoteleira ou feitos pessoais, que aumentem seus negócios ou permanências nas associações de classe.

Falta também um posicionamento às instituições de ensino, que precisam priorizar o ensino técnico e criar novas opções de empregabilidade, no ensino superior, fazendo com que as grades reflitam as mudanças e que se valorizem os docentes, em constante reciclagem e não apenas por titulação. Cada vez que a alta estação se aproxima, a Cidade Maravilhosa começa a viver uma série de problemas, que poderiam ser sanados durante o ano e não apenas implementados, quando situações limites ocorrem. Refiro-me, por exemplo, aos arrastões, que não se iniciaram hoje e que precisam de inteligência, além de patrulhamento ostensivo. 

O policiamento nas praias não pode se descuidar de outras áreas prioritárias turísticas, que hoje não recebem atenção suficiente, como a Barra da Tijuca, Jacarepaguá, Flamengo, Laranjeiras, Ipanema e Catete, para citar alguns bairros em pleno desenvolvimento turístico. Ter um batalhão de policiamento turístico não pode ser uma mera ferramenta de marketing. Para que tenha atuação real, precisa de pelo menos 650 homens, com um contingente de 90% bilíngue e pronto para atuar na prevenção de delitos contra turistas. Por outro lado, as UPPs foram uma caminhada importante para a dignidade das comunidades, mas atuaram também para responder à classe média vizinha, que teve seus imóveis valorizados e que se sentiu menos acuada na cidade partida. Ocorre que problemas como o Amarildo, fuga de traficantes para comunidades vizinhas ou falta de estratégias para um relacionamento com a comunidade estão criando novos problemas e até bolsões de segurança em locais pacificados. 

O Rio precisa de pessoas pensantes e não somente operacionais. Volto a sugerir que a prefeitura crie um conselho de notáveis, que possa buscar soluções rápidas para a cidade, como forma de colaboração. Há muita gente querendo ajudar, trabalhar e não apenas aparecer ou se aproveitar de algumas situações, de forma política ou pessoal. Lembro que conselhos não podem agrupar amigos do poder, mas opiniões diversas e consistentes. Outro fato, para o qual devemos atentar, é a limpeza da cidade. Ela precisa ser aprimorada. Sei que não é apenas uma providência governamental, que por exemplo com as multas poderá ter mais sucesso. 

Vislumbro que a população requer campanhas diárias, em seus ambientes de trabalho, condomínios, escolas mostrando que uma cidade limpa é mais segura e que esgoto a céu aberto, ao lado de condomínios luxuosos, na Zona Oeste, por exemplo, deve fazer parte de denúncias constantes e busca de soluções, antes da autorização de novas construções. A cidade que eu amo, em que nós vivemos e lutamos por ela (cada um de sua forma, sem patrulhamento ideológico e aceitando colaborações), é um termômetro para o desenvolvimento do Brasil e precisa ser preservada não apenas em discursos e obras inacabadas mas num constante despertar de inquietudes, lutas e sobretudo vontade...

* Bayard Do Coutto Boiteux, professor universitário e escritor, é pesquisador e presidente do site Consultoria em Turismo (www.bayardboiteux.com.br).

Tags: deve, fazer, luxuosos, na zona, Oeste, parte, por exemplo

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