Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Comunidade de comunidades: uma nova paróquia

Dom Orani João Tempesta*

A 51ª Assembleia Geral Ordinária da CNBB, em Aparecida, tem como tema central a questão paroquial. Depois de examinarmos a realidade religiosa em nosso país, na análise da conjuntura, nós nos debruçamos sobre a necessidade de encontrar meios de fazer com que as paróquias sejam comunidade de comunidades, ou rede de comunidades, como dizemos. O documento ainda não sairá nesta assembleia, pois o texto, depois de corrigido, discutido e aprovado, irá para reflexão nas comunidades para depois, em outra assembleia, ser aprovado como documento de nossa Conferência episcopal.

A paróquia é a casa, por excelência, de todos os fiéis, onde eles devem encontrar o Cristo ressuscitado. A paróquia é lugar de acolhida, de orientação, de ajuda espiritual e material. É a partir da paróquia que se podem descobrir os espaços não evangelizados de um território ou as situações que demandam atenção especial: escolas, hospitais, prisões, invasões, migrantes, favelas. A paróquia deve atingir o meio cultural e proporcionar ação pastoral que alcance o mundo da cultura e das artes.

A partir das paróquias pode acontecer uma renovada evangelização. Assim sendo, nossas paróquias devem ser acolhedoras, missionárias, fomentando redes de comunidades vivas e atuantes, que sejam irradiadoras de vida e, portanto, evangelizadoras. Acolhimento e missão formando discípulos de Cristo ressuscitado que vivam na unidade.

Devemos apostar na presença da Igreja, em forma de pequenas comunidades, em todos os cantos e recantos do território paroquial naquilo que se chama capilaridade. As pequenas comunidades bem orientadas e unidas na caminhada de Igreja podem ser um bom caminho de renovação da paróquia, porque possibilitam responder a vocação cristã que se realiza sempre em comum.

A renovação da paróquia é fundamental para a Igreja enfrentar os desafios pastorais, a missão, enfim, evangelizar, levar a boa-nova de Jesus Cristo a todas as pessoas, formando pequenos núcleos pastorais, como células vivas da grande mãe, chamada de paróquia. As migrações arrancaram as pessoas de suas raízes e trouxeram-nas para as cidades. Hoje a nossa vida em geral é urbana.

Na paróquia temos três compromissos fundamentais, que provêm da essência da Igreja e do ministério sacerdotal. O primeiro é o serviço sacramental. Entre os sacramentos, o que se destaca, é claro, é a Eucaristia, que é centro e fonte de nossa vida cristã. Porém, temos dois sacramentos que merecem uma atenção especial devido às atuais circunstâncias. Um deles é o sacramento do Batismo, a sua preparação e o compromisso de dar continuidade às recomendações batismais, e que já nos colocam também em contato com quantos não são muito crentes. Temos nesse trabalho a importante iniciação cristã. O compromisso de preparar o Batismo, de abrir as almas dos pais, dos parentes, dos padrinhos e das madrinhas à realidade do mesmo, já pode e deveria ser um compromisso missionário, que vai muito além dos confins das pessoas já são "fiéis". Ao preparar o Batismo, procuramos fazer compreender que este sacramento é inserção na família de Deus, que Deus vive, que Ele se preocupa por nós. Esse sacramento nos faz aprofundar toda a vida cristã.

Outra preocupação paroquial a ser considerada diz respeito ao sacramento do Matrimônio: também ele se apresenta como uma grande ocasião missionária, porque hoje, graças a Deus, temos muitos que desejam se casar na Igreja, inclusive tantos que, mesmo batizados, não a frequentam muito. É uma ocasião para levar estes jovens a confrontar-se com a realidade que é o matrimônio cristão, o matrimônio sacramental. A preparação para o matrimônio é uma ocasião de grandíssima importância, de missionariedade, para anunciar de novo no sacramento do Matrimônio, o sacramento de Cristo. Aqui se insere toda a questão da vida e família.

O segundo compromisso fundamental da paróquia é o anúncio da Palavra, com os dois elementos essenciais: a homilia e a catequese. Urge redescobrirmos que a homilia deve ser a "ponte" entre a Palavra de Deus, que é atual e deve chegar ao coração das pessoas. Devo dizer que a exegese histórico-crítica com frequência não é suficiente para nos ajudar na preparação da homilia. Observemos que o próprio papa Francisco, na sua celebração cotidiana na Capela da Casa Santa Marta, onde está residindo, de maneira muito atual para a vida da Igreja e de todos os batizados, está atualizando a Palavra de Deus para vivermos a nossa vocação batismal. Ele assim também se expressou à comissão bíblica internacional nestes dias.

O terceiro compromisso fundamental da paróquia é a questão social: a “charitas”, a “diakonia”. “Somos sempre responsáveis pelos que sofrem, pelos doentes, pelos marginalizados e pelos pobres”. Pelo retrato da diocese, vejo que são numerosos os que têm necessidade da nossa diakonia, e esta também é uma ocasião sempre missionária. Assim, tenho a impressão de que a clássica pastoral paroquial se autotranscende nos três sectores e se torna pastoral missionária.

Por isso, não podemos nos descurar do respeito que devemos dar aos nossos agentes de pastoral. O pároco não tem como fazer tudo. É impossível! Hoje, quer nos movimentos, quer nas pastorais, nas associações, nas novas comunidades que existem, temos agentes que podem ser colaboradores na paróquia para a constituição de uma verdadeira rede de comunidades, para que a paróquia atinja a todos os que não são tocados pela nossa pastoral clássica.

O trabalho paroquial será enriquecido com as ideias que o documento de nossa Assembleia Geral traz para ser aprofundado e colocado em prática. É um tema necessário e atual. Tenho certeza de que nos ajudará a dinamizarmos ainda mais nossa missão de discípulos de Jesus Cristo nestes tempos de tantas necessidades. 

* Dom Orani João Tempesta, cisterciense, é arcebispo do Rio de Janeiro.

Tags: Artigo, dom orani joão tempesta, JB, paróquia, sociedade aberta

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