Médicos especiais
Os médicos não nascem médicos. Precisam estudar (e muito), para enfrentar seis anos do curso de graduação e mais alguns anos de especialização após a formatura, para adquirirem o título de especialista em qualquer área. A pós-graduação, que compreende a residência médica, pode durar de dois a cinco anos, dependendo do curso a ser feito, e é o caminho para o egresso do curso médico aprofundar seus estudos, ampliar sua vivência profissional e colocar em prática o que aprendeu durante a graduação.
A busca por vagas em residências médicas no país hoje se transformou em um segundo vestibular que esses jovens tem que enfrentar em suas vidas. Devido à escassez de vagas e instituições que promovem os cursos, o candidato tem que peregrinar por várias universidades ou hospitais ao redor do país em busca de uma oportunidade para cursar sua especialidade, e mesmo assim não há nenhuma garantia de aprovação, haja vista a desproporção entre o número de candidatos e o de vagas oferecidas. A verdade é que no país atualmente se formam muitos médicos a cada ano, mas esse número não é acompanhado proporcionalmente pela abertura de novas vagas em residência médica.
Segundo dados recentes de um estudo denominado “Demografia Médica no Brasil 2”, que avaliou a distribuição de médicos especialistas ao redor do país, o número de profissionais especializados ou em curso de residência ainda é pequeno e muito desproporcional no que se refere a distribuição populacional e as necessidades de atendimentos do país. A maior parte dos cursos de especialização e especialistas está no estado de São Paulo (quase 29% de todos os profissionais); o estado também detém a maior quantidade de vagas para residência médica: 3831 no total.
De fato, São Paulo é o estado mais rico e populoso da nação, com 22% da população do país, mas quando se compara com outros estados a discrepância aumenta muito. Para se ter uma ideia, o estado do Amapá, que atualmente tem uma população de 700 mil habitantes, possui nove cardiologistas e apenas um médico intensivista registrado no conselho de medicina. Quando se compara o número de especialistas por mil habitantes de uma região, o norte mais uma vez é desfavorecido: o Maranhão possui uma razão de 0,26 especialistas/mil habitantes, o Pará 0,37 e o Amapá 0,42, bem longe do líder do ranking, o Distrito Federal, que apresenta uma relação em torno de 2,69, e que também não é a ideal se comparado com países mais desenvolvidos, com um sistema de saúde mais eficiente e melhor distribuído.
O resultado disso tudo é uma grande procura por especialistas em todo o país, filas quilométricas nos postos de marcação de consulta, agendas abarrotadas de pacientes para serem atendidos e profissionais descontentes e sobrecarregados de suas funções. O sudeste, que acumula o maior número de profissionais, nem por isso apresenta a solução dos problemas da maior parte da população, que se mantém sempre carente de atendimento e de bons profissionais. Por isso, além da distribuição geográfica assimétrica e boas opções de formação, os profissionais esbarram também no sistema de saúde, sempre muito sucateado e encharcado de erros, sem perspectivas de renovação e mudanças estratégicas para melhoria de suas funções.
Após terminar o curso médico, o jovem profissional anseia por uma série de condições, uma delas é capacidade de progredir em sua profissão e adquirir uma boa formação complementar. O que mantém o médico fixado em uma região não é necessariamente os altos salários, sobretudo aqueles oferecidos como atrativos para a estabilização no interior do país. O que convence os jovens profissionais ainda são as oportunidades de crescimento na profissão e perspectivas de bons empregos a longo prazo, por isso, os grandes centros do sul e sudeste ainda são a primeira e dominante escolha para esses novos médicos.
Por esse motivo, a solução para essa questão não é, como considerado pelo governo, abrir cursos de medicina e residências sem controle, em todas as áreas menos povoadas e favorecidas do país. É sim dar condições de formação e trabalho dignas e corretas para esses profissionais implantarem seus estilos e trabalho em suas regiões, promovendo a descentralização do atendimento médico além das grandes metrópoles. A residência médica ainda é um curso de pós graduação, e o médico recém formado precisa de boa formação técnica e humanizada em seu curso; o médico residente não pode e não deve ser considerado mão de obra barata pelos hospitais, para suprir a carência de profissionais que ainda é dominante em muitas regiões. Por representar o futuro no atendimento clínico, a continuidade da medicina e a esperança de um sistema melhor e mais equilibrado, os residentes devem ser olhados com atenção pelos gestores, pois todos são médicos muito especiais.
Vanderson Carvalho Neri
Médico neurologista
vandersoncn@yahoo.com.br
