Jornal do Brasil

Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

País - Sociedade Aberta

Tempo e maturidade

Jornal do BrasilMaria Clara Bingemer

Às vezes é difícil explicar a meus alunos mais novos em que  consiste a sabedoria.  Os livros sapienciais da Bíblia Judaica oferecem-nos  um perfil do sábio como aquele que chegou a um ponto de maturidade na vida. 

 Isso significa que já tem um conhecimento razoável do que é transformável e  do que é inevitável.  Sabe conviver com situações-limite e entende  dever  suportá-las, pois não está a seu alcance algo fazer para mudá-las. 

Sua sabedoria consiste em aprender com a situação que lhe é dado  viver naquele momento.  Ou reler experiências do passado e fazer sobre elas  novas sínteses que lhe propiciem igualmente fecundo aprendizado para sua vida  no presente.  E este aprendizado é o que de melhor pode legar àqueles que  agora vivem sua juventude e se encontram diante de um futuro longo e  fascinante.

Assim é que a maturidade permite olhar para trás e aprender com os  acertos.  E também – e talvez principalmente – com os erros. O que foi feito  e não deveria; o que foi experimentado e não acrescentou; decisões que não  levaram aonde se esperava...tudo isso pode ser resgatado e reciclado em  fecunda aprendizagem, que ajudará o próprio e a outros a trilhar caminho melhor e mais largo. 

Essa reflexão me vem não apenas pela experiência de avançar nos  anos.  Mas também e não menos de observar certas situações que comprovam  aquilo que acima afirmo.  Por exemplo, a discussão sobre a participação ou  não do papa Francisco, então Jorge Bergoglio, na ditadura argentina. A mídia  trouxe à luz dúvidas, ambiguidades a esse respeito e jogou a questão no ar.

Acompanhando as notícias que vêm saindo, vai-se constatando que,  quatro décadas depois, o então provincial dos jesuítas na Argentina, Jorge  Bergoglio apresenta um perfil de alguém que ajudou a quem necessitava de  abrigo e proteção naqueles anos terríveis de seu país.  Quando o rio da Prata  se tornava túmulo de milhares de desaparecidos nos chamados voos da morte, o  jesuíta Bergoglio conseguia passaportes para atravessar a fronteira, avisava  a futuros perseguidos que se escondessem, já que seus nomes constavam das  macabras listas da ditadura .

Alguns continuam acusando-o de não haver sido suficientemente  destemido para expor-se e denunciar aquelas situações como o fizeram outros.   Entre eles, o bispo mártir Angelelli.  Porém, quem não viveu as terríveis  tensões daqueles anos sombrios deveria ser mais cauteloso em acusar e falar.   As circunstâncias eram tão perigosas e adversas que não era fácil encontrar  as atitudes certas a tomar.  Muitas vezes a regra do mal menor tinha que  sobrepor-se à do bem maior.  E criar no silêncio e no anonimato condições  para que uma vida não fosse destruída era muitas vezes a única maneira de não  compactuar com aquele contexto de morte. 

Todos mudamos e amadurecemos com o tempo.  Mudam as circunstâncias,  mudam muitas vezes as atitudes.  A mesma mídia que se apressou em propalar  aos quatro ventos as suspeitas que pesavam sobre o jesuíta Bergoglio não teve  a mesma urgência em revelar que há dez meses, na Faculdade de Teologia de  Buenos Aires, o então arcebispo Jorge Bergoglio resgatou a memória do Pe. 

Rafael Tello, um dos iniciadores da teologia da libertação naquele país.  E  explicitando seu gesto disse: “Essas reparações que Deus faz: que a hierarquia, que em seu momento achou conveniente retirá-lo da faculdade, hoje diga que seu pensamento é válido.  Mais ainda, foi fundamento do trabalho evangelizador na Argentina.  Quero dar graças a Deus por isso.“ 

Nestas palavras do atual Papa, pronunciadas há menos de um ano, encontramos a sabedoria madura de quem revê suas atitudes e se alegra com as mudanças que acontecem em sua consciência e na do segmento eclesial a que pertence. O Papa Francisco inicia seu pontificado proclamando sem cessar a opção pelos pobres.  Sente-se no ar o perfume e o sabor da volta ao Concílio Vaticano II. 

Procuremos aprender com sua sabedoria em lugar de voltarmos incessantemente a sombras que porventura haja em seu passado, em sua Argentina natal.  É hora de aprender com ele a ter a coragem de rever-se e voltar-se decididamente para uma missão nada fácil.  Nela, terá sempre a inspiração do Espírito.  Que tenha igualmente nossa ajuda e apoio.  

* Maria Clara Bingemer, professora do  Departamento de Teologia da PUC-Rio

Tags: Artigo, JB, maria clara, maturidade, sociedade aberta

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