Jornal do Brasil

Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

País - Sociedade Aberta

Mais equilíbrio na CIDH

Jornal do BrasilJosé Dirceu

Há uma disputa em curso na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), entidade da Organização dos Estados Americanos (OEA) que zela pela proteção e promoção dos direitos humanos em todo o continente americano. 

De um lado estão os EUA, que, apesar do histórico desrespeito aos direitos humanos dentro e fora de seu território e da recusa em aceitar a avaliação de organismos multilaterais, são os principais financiadores da CIDH e abrigam a sede da entidade. 

Do outro lado, estão países da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), que enxergam na atual configuração da CIDH um desequilíbrio político gritantemente favorável aos interesses norte-americanos. 

Os membros da Alba estão certos. Os EUA não assinaram a Convenção Americana sobre os Direitos Humanos, conhecida como Pacto de San José, o que significa que não reconhecem a competência da corte para julgar casos de violação dos direitos humanos em seu território. É um despropósito, portanto, que tenham maior influência na comissão que os países latino-americanos - signatários do pacto - e que continuem escapando de uma vigilância internacional e independente. Não faz sentido, ainda, que a sede da entidade fique em Washington, se 98% dos casos levados à CIDH são relativos à América Latina. 

No final de março, durante a Assembleia Geral da OEA, os dois lados em disputa travaram um debate, do qual saiu vencedora uma proposta intermediária, negociada por Brasil e Argentina, entre outros países. As reformas sugeridas pelo bloco da Alba -como a mudança da sede do CIDH e seu financiamento próprio- não foram aprovadas, mas o Conselho Permanente da OEA foi autorizado a continuar o diálogo sobre aspectos importantes para o fortalecimento do Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Na prática, isso permite que os países integrantes da Alba peçam uma nova revisão sobre o sistema de funcionamento da CIDH, o que é essencial. 

Hoje, um dos aspectos em que a pressão política norte-americana pode ser sentida mais fortemente na CIDH é na atuação de sua relatoria especial sobre liberdade de expressão. O maior empecilho à liberdade de expressão na América Latina são os monopólios de mídia, que direcionam seus jornais, rádios e TVs, de forma parcial e política, em favor das elites concentradoras de renda e contra os governos de inspiração popular que surgiram na região. Pois são esses donos da mídia que, apoiados pelos Estados Unidos, controlam a relatoria especial sobre liberdade de expressão da CIDH. 

O resultado é que as tentativas dos governos populares de se defenderem dos ataques e manipulações da mídia conservadora são apontadas, falsamente, como "ameaças à liberdade de expressão" por esses velhos barões da imprensa. 

O truque é evidente, mas a força política dos EUA e de seus aliados na América Latina impede que a máscara caia. Está mais do que na hora de que uma entidade da importância da Comissão Interamericana de Direitos Humanos se torne, ao mesmo tempo, mais equilibrada e mais poderosa. As propostas de mudança do corajoso bloco de países bolivarianos apontam para a direção correta. 

* José Dirceu, 67, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT

Tags: Artigo, cidh, dirceu, JB, sociedade aberta

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