Tempos de paixão e morte, tempos de vida
Outro dia alguém me parou e perguntou: “Para onde você está indo?” Respondi: “Estou indo para lugar nenhum. Estou andando, simplesmente.”
A vida é mesmo uma viagem. Pode ser curta, pode ser longa, pode ser mediana. Os dias vêm e vão, os acontecimentos vão se dando ao nosso redor, em geral não conseguimos interferir neles, apenas os assistimos, de perto, de longe, e continuamos a jornada.
Se a gente tem algo importante em que acredita, se tem um sonho, fica mais fácil. Algo como, vamos ver: “Trago para vocês uma Boa Nova. Trago a proposta do Reino.” Há um horizonte e há um caminho para se chegar ao horizonte.
Mas se a gente não tem isso, fica vagando sem rumo e sem prumo, ao Deus dará, todo dia uma coisa ou coisa nenhuma. Um dia enche a cabeça de trago sem saber porquê, outro dia arranja companhia descartada no final da madrugada, ou ainda sai de casa de manhã e volta à noite se perguntando sobre o que de importante fez nas últimas 24 horas. Fica difícil viver hora após hora, minuto após minuto, segundo após segundo. Um dia você cansa, não sabe mais o que fazer: se mete uma bala no ouvido, se vai encharcar os miolos todo fim de semana até desacordar, ou se vai continuar vivendo a vidinha de sempre, que não diz nem a nem b, não tem sal, não tem chão, não tem sentido, não tem horizonte.
O sonho alimenta a alma. Então, quando as dores vêm, quando bate o sofrimento, há uma luz no fim do túnel que deixa respirar o coração, que permite saber-se vivo, que traz energia. Aí você enfrenta o mundo, enfrenta os homens, enfrenta qualquer coisa que vier pela frente. Você reúne outros e outras ao redor de si, fala de seu sonho, fala de suas ideias, fala da Boa Nova. Fala do Reino. Diz com convicção que ele, o Reino, não é deste mundo. Ou melhor, ele é sim deste mundo, ele acontece aqui e agora, mas ele vai além, ele transcende, ele não é só hoje, só amanhã ou foi só ontem.
O Reino tem coisas muito boas. Nele você enxerga fraternidade. Nele você planta justiça, nele você colhe paz, nele você pratica a solidariedade. No Reino, todas e todas, homens, animais, plantas, todos os seres vivos, o ar, água, a terra, a luz estão irmanados na mesma busca e vivência. Há claridade, há compromisso, há serviço, há transparência, há escuta, há silêncio.
E há sempre, é claro, como em todos os lugares, os poderes estabelecidos e seus hipócritas de plantão. Eles não querem este Reino. Para eles, só há reino onde eles reinem, onde sejam únicos donos da única verdade. Por isso, eles te olham, te observam, acompanham o tempo todo teus passos, teus gestos, teus pensares, tuas visitas, teus amores, tuas palavras. Querem saber até onde chegam tuas ideias, querem saber quem abraça teu sonho, quem mais assume o Reino, quem faz-se apóstolo teu, quem se diz companheiro e companheira.
Quando eram dez que te seguiam, a preocupação era pouca: “Aí está mais um maluco profeta e suas ideias sem pé nem cabeça.” Mas de repente viram que já eram vinte, que as palavras não mais entravam num ouvido e saíam pelo outro. E se deram conta que era como um rastilho de pólvora. As pessoas se aprochegavam, ouviam, abriam olhos e ouvidos e saíam a proclamar o que tinham visto e escutado.
Os donos do poder estabelecido e os hipócritas de plantão começaram a tramar tua derrubada. Se novas ideias tomarem conta, se o sonho criar raízes, o horizonte ficará mais perto, mais e mais ‘povos e povas’ saberão que as antigas leis fracassaram, as proibições eram discriminatórias, o respeito submisso não tinha razão de ser, a hipocrisia era vazia.
Começa a perseguição, teus passos não são mais livres, tua voz é abafada. São tempos duros, tempos de paixão. Você se pergunta: “Mas valeu a pena? Por que vou ficar me preocupando com solidariedade, com justiça, com paz, com fraternidade, se posso viver minha vidinha como quase todos a vivem? Poderia simplesmente tomar o café da manhã e não me perguntar sobre nada, poderia almoçar com os amigos como se nada estivesse acontecendo ao meu redor, nem pobreza, nem fome, nem injustiças, nem covardias. Poderia jantar me preparando para o sono imperturbável dos justos.”
Mas o tempo já não é mais teu, nem o horizonte. O sonho bate no olhar, e aí você sabe que não pode fugir, não deve fugir. Ele, o sonho, é maior, vale uma vida, vale um mundo. E você segue em frente, você enfrenta todos os poderes estabelecidos e todos os hipócritas de plantão, você tem coragem. Não tem jeito. Chega a hora de reunir amigos, amigas, companheiros, companheiras ao redor de um chimarrão, de uma caipirinha, de um churrasco e dizer: “A hora está chegando. Conto com vocês para o que der e vier e para o futuro.”
Eles o matam, ou pensa que o mataram.
Mas de repente, não mais que de repente, alguém vai te procurar, quer saber de tuas ideias, quer saber do teu sonho, quer perseguir o horizonte no teu lugar. E aí você ressuscita, você vive de novo. Você torna-se eterno. Os tempos de vida suplantaram os tempos de paixão e a morte. Os tempos de vida são esperança, são amanhã, são sempre.
Feliz Páscoa=Passagem a todas e todos!
* Selvino Heck - Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República
