Glaucoma
Uma das principais causas de cegueira, doença ocular silenciosa e incurável, mas controlável
O termo glaucoma engloba um conjunto de condições oculares que causam alterações do nervo óptico associadas a característicos defeitos do campo visual, geralmente associadas à pressão intraocular elevada.
O glaucoma, juntamente com a degeneração macular relacionada à idade, à retinopatia diabética e à catarata, representam as maiores causas de cegueira no mundo.
Estima-se que cerca de 70 milhões de pessoas em todo o mundo apresentem alguma forma de lesão glaucomatosa. No Brasil mais de 900.000 pessoas são glaucomatosas, sendo que apenas a metade delas sabe que é portadora desta doença.
Em geral, o glaucoma primário de ângulo aberto é o mais frequente entre todos os tipos de glaucoma e sua incidência corresponde a 55%, seguido pelos glaucomas secundários, 30%; depois vem o glaucoma de ângulo fechado, 12% e finalmente o glaucoma congênito, 3%.
Vários exames oftalmológicos são realizados para o diagnóstico do glaucoma entre os quais estão: tonometria e tonografia para avaliar a pressão intraocular; gonioscopia para visibilização e avaliação do ângulo da câmara anterior; oftalmoscopia para estimar a cor, a configuração da escavação e o anel neuro-retiniano do disco óptico; a perimetria visual (manual e computadorizada) para detectar e quantificar os eventuais defeitos de campo visual. Métodos mais sensíveis e sofisticados (tomografia da retina, tomografia de coerência óptica e polarimetria de varredura a laser ) para o estudo das lesões das fibras nervosas da retina e alterações da morfologia e vascularização do disco óptico tem sido introduzidos na semiologia ocular para possibilitar diagnóstico mais precoce e para auxiliar na monitorização do glaucoma no curso da doença.
O glaucoma primário de ângulo aberto é bilateral, nem sempre simétrico, apresentando escavação e atrofia do disco óptico, defeitos típicos do campo visual e pressão intraocular acima de 21 mmHg. Este tipo de glaucoma é caracterizado, na maioria das vezes, por ausência de sintomas e tem um curso insidioso; a função visual permanece normal ou levemente diminuída até fases avançadas da doença.
A sua prevalência varia de 0,5 a 1,6% na população em geral acima de 40 anos de idade; este glaucoma é dependente do nível de pressão intraocular, da idade e do grupo étnico (mais acentuada nos negros).
O glaucoma primário de ângulo aberto tem caráter hereditário (multifatorial) e é responsável por 12 a 20% de cegueira, quando não diagnosticado precocemente e/ou não tratado adequadamente.
O diagnóstico do glaucoma primário de ângulo aberto nos casos típicos é relativamente fácil. Atualmente, por se saber que a hipertensão intraocular nem sempre se associa ao glaucoma e que o glaucoma pode ocorrer com pressão intraocular normal, o diagnóstico se tornou um pouco mais difícil, especialmente nos glaucomas iniciais. As pessoas com idade acima de 40 anos, histórico de glaucoma na família, pressão intraocular elevada, descendentes de etnia negra, os míopes, os diabéticos, usuários de esteróides por longo tempo ou traumas oculares são os que apresentam maior risco de desenvolver glaucoma.
O tratamento do glaucoma primário de ângulo aberto é, basicamente clínico; apenas nos casos em que a pressão intraocular se mantém elevada e associada à progressão de lesões do disco óptico apesar deste tratamento, é que se indica a cirurgia.
O tratamento clínico objetiva reduzir a pressão intraocular. Há à disposição no mercado muitas drogas com vários mecanismos de ação.
Resumidamente, os bloqueadores adrenérgicos (timolol a 0,25% ou 0,5%; levobunolol a 0,5%) são bem tolerados pela maioria dos pacientes. Outras drogas lançadas no mercado vieram dar novas opções ao tratamento do glaucoma. Dentre elas temos os alfa 2 agonistas adrenérgicos ( brimonidina a 0,2%) e os inibidores da anidrase carbônica tópicos (dorzolamida, brinzolamida) que diminuem a formação do humor aquoso, enquanto que os análogos das prostaglandinas (xalatan, travatan, lumingan e saflutan) aumentam a drenagem da via úveo-escleral. Todas estas drogas podem ser associadas aos ? bloqueadores.
A cirurgia pode ser não invasiva (trabeculoplastia por laser) ou incisional (trabeculectomia isolada ou associada a antiproliferativos como o 5-Fluorouracil e a mitomicina C, implantes valvulares e ciclofotocoagulação por laser).
Glaucoma primário de ângulo fechado é o tipo de glaucoma em que há obstrução mecânica abrupta do ângulo de drenagem do humor aquoso. Ao contrário do glaucoma primário de ângulo aberto pode apresentar rica sintomatologia relacionada com a elevação súbita da pressão intraocular, que determina dor ocular intensa, visão turva e irisada acompanhadas de náuseas e vômitos. Entre os sinais podemos observar edema de pálpebras, edema de córnea, olho vermelho, pupila dilatada, câmara anterior rasa e ângulo ocluído, atrofia de íris e opacidades do cristalino. O tratamento é essencialmente cirúrgico, sendo necessário inicialmente combater o processo agudo por meio clínicos. A cirurgia consiste em realizar a iridectomia cirúrgica ou por laser de argônio ou Yag.
O glaucoma congênito é uma condição em que anormalidades primárias ou secundárias na malha trabecular resultam em aumento da pressão intraocular; caracteriza-se pela tríade sintomática: fotofobia, lacrimejamento e blefarospasmo. Edema de córnea, aumento do diâmetro da córnea, roturas da membrana de Descemet, escavação glaucomatosa e aumento do comprimento axial do globo ocular representam os sinais desta doença. O tratamento é cirúrgico (goniotomia ou trabeculotomia).
O capítulo dos glaucomas secundários é muito complexo, rico e difícil e exige dos oftalmologistas intensa investigação e estudo de cada caso, para não catalogar olhos hipertensos apenas como glaucoma. É necessário firmemente definir se o glaucoma é primário ou secundário; se secundário, reconhecer o tipo, o mecanismo ou doenças relacionados.
O glaucoma é uma doença que pode ser prevenida, tratada e controlada, mas infelizmente não pode ser curada. Assim, é desejável que o diagnóstico precoce, assim como o tratamento apropriado e imediato sejam ser feitos, evitando desta forma a cegueira definitiva do paciente.
É importante destacar que a fidelidade, a adesão ou obediência do paciente ao tratamento é vital para o sucesso do tratamento. É ai que a ABRAG-Rio ( Associação Brasileira de Portadores de Glaucoma, Amigos e Familiares) presidida pela Drª Isis Penido, assumi papel fundamental, pois esta instituição sem fins lucrativos se dedica a divulgar e a informar sobre a natureza da doença e suas consequências, a desenvolver atividades educacionais, a apoiar e a orientar os pacientes na luta contra a cegueira pelo glaucoma. A propósito, a ABRAG-Rio está promovendo vários eventos comemorativos na Semana Mundial do Glaucoma (9 a 16 de março). Vale a pena lembrar sempre que o glaucoma é “o ladrão silencioso da visão”.
* RIUITIRO YAMANE - Professor Livre Docente e Ex-Professor Titular de Oftalmologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ; Doutor em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro -UFRJ
