Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

País - Sociedade Aberta

Para onde os pés te levam?

Jornal do BrasilAntônio de Pádua Galvão*

Lugar de pedestre é nas calçadas em perfeito estado de conservação. Longe destas calçadas que fazem parte do nosso dia a dia, cheias de buracos, remendos, degraus e irregularidades. Afinal, por que o pedestre ficou tão marginalizado nesta cultura automotiva das cidades? Gastam-se milhões com pavimentação asfáltica e pisos antiderrapantes para os veículos. E o cidadão que caminha tem que desviar e fazer malabarismos para não machucar os pés, torcer o tornozelo ou cair. 

Andar com passos harmoniosos, suaves é tarefa agradável. Andar faz tão bem à saúde, aos olhos e à alma. Vivo caminhando e me divertindo, vendo as coisas e as pessoas.  Sou uma espécie de andarilho urbano. Minha andança preferida é pelo centro da cidade para os lados da Praça Sete. Ando em direção ao bairro de Lourdes e Funcionários. Chego até a Lagoinha, Floresta, Santa Teresa, Santa Efigênia, Sagrada Família, Horto e outros caminhos. 

Belo Horizonte está longe de oferecer boas calçadas. Existe uma trama indecifrável entre o proprietário do imóvel e a fiscalização da prefeitura. Passam-se anos, e lá está o buraco no meio do caminho. No meio do caminho tinha um declive, agora tem um buracão. Será que obra do metrô?

O pedestre é movimento, é exploração dos detalhes da cidade. Esgueira pelos cantos, salta obstáculos e tropeça no piso rasgado pela indiferença. Caminhar é se aventurar pelo território dos buracos e degraus. É um jeito natural de deslocar na vida. Dar aos pés os caminhos mais tortuosos para encontrar um piso firme e descansar na grama ou na areia, no tempo do repouso e lazer. 

São as trilhas que nos levam para os objetivos e sonhos. É no pezinho que se faz o primeiro exame. São os pés que carregam os bebês, suportam a balada dos jovens, o sapato apertado do trabalho e o compromisso do casamento. Os pés procuram as trilhas. Gasta-se sola na busca pelo primeiro emprego. E são os pés os parceiros na esfrega carinhosa da primeira namorada. Eles procuram solos firmes, escolas boas, futebol, bar, Carnaval, a procissão e solo sagrado das igrejas.

Existe o ditado Quem tem boca, vai a Roma. Eu reflito: quem tem pés, vai ao infinito dos seus sonhos! São eles que levam a qualquer canto e localidade. Dê a eles 

calçados macios e confortáveis e uma boa jornada para percorrer. Sairão felizes e apressados. Quem procura acha. Quem caminha encontra.

O milésimo gol foi feito pelos pés de um craque. Os pés dão mais alegrias aos torcedores que o pronunciamento das ditas autoridades. Sem os pés não existiria a o mundo. Tem gente que teve que perder os pés para se movimentar. Colocaram pés de borracha. Pneus. Bota de aço e metal. O pé desenha sentidos, múltiplos contornos e ideias: o pé de valsa desliza no salão; da última hora falam no pé na cova; falta recurso, é pé de chinelo; o pé de boi trabalha firme; o corredor é o pé pesado; quando cai uma tempestade é pé d’água; os humildes de coração praticam atos de lava-pés; para abrir portas, pé de cabra; doce é o pé de moleque; sorte no bicho é pé quente; o cultivador de azar é pé frio; pé de galinha, um horror para as balzaquianas; o chato, pé no saco; os que coçam é o bicho de pé; gota no pé é inchaço e dor. Existem infinitos modos de falar desses membros tão essenciais. 

Devíamos prestar homenagem aos pés. Pois são eles que carregam nossos ossos, membros, pastas e bolsas. Quem sabe uma singela escultura no pé da Serra do Curral? Agora o que quero mesmo é criar um momento de reflexão. Fazer uma escalada a pé. E imaginar um faixa ou pista exclusiva para os pedestres. Fantasiar a Avenida Afonso Pena, da Praça Sete a Praça Tiradentes, a disposição dos caminhantes e andarilhos. Também outros territórios urbanos, praças, largos e áreas. Com um espaço urbano para cafeterias, bares, restaurantes, feiras abertas e shopping ao ar livre. Tudo muito bem arborizado e agradável para descansar os pés e apreciar o espírito. Quem sabe a ousadia de um urbanista pedestre, de um político sensível e do povo reivindicador e lutador possibilite a criação do Estado do andarilho e faça cumprir o Estatuto do Pedestre. 

* Antônio de Pádua Galvão, professor, é economista e psicanalista. - www.galvaoconsultoria.com.br

Tags: antônio de pádua galvão, calçadas, economista, pedestres, professor, psicanalista

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