Sinal vermelho na economia
Instituições bancárias, grandes empresas, de todos os setores, e países dependem da confiança e credibilidade para transitarem junto aos mercados. Sejam os financeiros, sejam os de consumidores.
Não se pode negar, por exemplo, que o tradicional Hotel Copacabana Palace não tenha ficado sob suspeição de sua clientela depois que a Saúde Pública apreendeu grande quantidade de produtos alimentícios estragados e fora de validade. Nem que as exportações de carne passaram um susto com a questão da mistura com carne de cavalo em empresas de processamento do produto na Europa. Este mês, com a “greve programada”, o prejuízo diário da Iberia deve ter aumentado, criando um clima de desconfiança em sua clientela. E justamente em momento em que se procura salvar empregos através de ajustes que se impõem.
O governo brasileiro, depois de um período de encantamento dos mercados e dos analistas internacionais, inclusive publicações de prestígio, entrou em fase de desgaste, que vem se aprofundando. Não se trata de nenhuma conspiração ou jogo de interesses mas, sim, de fatos concretos. A começar pelos prejuízos de milhares de investidores no setor elétrico, cujas regras foram alteradas, contrariando a tradição no que toca às concessões. Depois, nossa maior empresa, a Petrobras, grande tomadora de recursos no mercado financeiro, perde valor, rentabilidade, e tem investimentos de monta alvo de controvérsias. As contas públicas são alvo de especulações na manipulação de dados, a inflação passa do previsto, e as teles estão em conflito com o órgão regulador, sofrendo pesadas multas.
Na esfera política, repercutem as manifestações de intolerância para com a passagem pelo Brasil de uma crítica do regime cubano, em que foi denunciado o dedo do próprio governo e uma interferência inadmissível do embaixador cubano. E não foi a primeira vez, vide o caso dos dois atletas entregues a Cuba quando haviam pedido asilo, o que se confirmou com o posterior resgate dos dois, hoje vivendo na Alemanha. Basta olhar para a Argentina, em que o governo está em confronto com a imprensa, e o comércio, em meio à crise, já atinge o abastecimento de gêneros de primeira necessidade. E as relações do Brasil com a Argentina podem ser definidas como afetuosas e de solidariedade. Assim, como podemos atrair investimentos estrangeiros?
O clima de permanente agito político tem feito crescer a influência de movimentos pouco significativos, mas com ampla cobertura, que barram obras em todo o país, levando inclusive os programas de aceleramento do crescimento do governo a um desempenho pífio. Só agora, com as ameaças de problemas no fornecimento de energia, ou no seu custo pelo consumo de combustíveis, é que se verifica o crime da construção de usinas praticamente sem reservatórios.
Alto endividamento público, endividamento das famílias no limite, inadimplência em alta e gargalos nos portos e aeroportos completam um quadro que, racionalmente, não pode inspirar confiança justamente nos personagens mais desconfiados do planeta, que são os investidores.
* Aristóteles Drummond é jornalista. - aristotelesdrummond@mls.com.br
