Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Maio de 2013

País - Sociedade Aberta

Alerta aos médicos

Jornal do BrasilThelman Madeira de Souza*

A formação deve ser o elemento regulador dos limites de qualquer atividade. A partir daí, podemos afirmar que apenas os médicos estão habilitados à atividade médica. Contudo, estes convivem, diuturnamente, com uma interferência descabida de outros profissionais em seus assuntos, com graves prejuízos para a assistência médica. Cada vez mais, ocupações paramédicas, sem habilitação para examinar, diagnosticar e tratar um paciente, insistem em concorrer com os médicos. Um absurdo total! Enquanto isso, a atividade médica, principal responsável pela manutenção e restauração da saúde, até hoje não foi regulamentada, em virtude da omissão e irresponsabilidade de congressistas e governantes. Percebe-se, então, que o esvaziamento desta atividade interessa aos governos descompromissados com a saúde da população, aqueles que transformam o médico no alvo principal de uma mídia sensacionalista e tendenciosa, sempre pronta a julgá-lo e condená-lo, como o responsável pelo caos na saúde. Cúmplices nessa campanha sórdida, mídia e governantes lenientes com a corrupção trabalham rumo à privatização da saúde. Contra esse quadro adverso, os médicos devem se mobilizar em duas frentes de luta: uma, para preservar o acervo cultural da medicina de apropriações indevidas; outra, para denunciar o baixo investimento e a corrupção na saúde. 

Nessa linha de desacordo com o social, o governo Dilma segue comprometendo o patrimônio público, para atender aos objetivos de uma política econômica de ajustes, capaz de garantir os ganhos dos investidores internacionais, mas incapaz de garantir políticas públicas. Testemunhamos o sucateamento dos serviços públicos de saúde, no mesmo passo da desmoralização da atividade médica e da dor de milhões de brasileiros que, apesar da propaganda triunfalista, continuam pobres, doentes e passando fome. Um governo que não cuida da saúde de sua população não respeita a dignidade humana e vulnera a soberania nacional. Não adianta fazer um discurso pós-moderno e privatizar a saúde. 

Eleito para defender a coisa pública, o atual governo, paradoxalmente, a transforma em ente privado, com sérios prejuízos para a população. É o caso dos hospitais públicos, transfigurados em organizações sociais, com fundamento na falácia de que público é o que atende o público, no lugar de tudo aquilo que tem o Estado como garante. Com o discurso da eficiência com baixo custo, e contando com a colaboração de gestores incapazes e pusilânimes, verdadeiros cães de guarda de uma proposta perversa para os médicos e a população, o governo faz do Ministério da Saúde o bastião de uma política de saúde antipovo. 

Atores importantes, nesse trabalho de demolição da saúde pública pelo governo federal, são os planos de saúde, conhecidos pela ganância e por práticas indecorosas, capazes de vexar até a lógica do lucro capitalista. Parceiros do governo, ditam as regras na Agência Nacional de Saúde(ANS), enfraquecendo a sua função fiscalizadora. 

Nessa incumbência, os ideólogos da saúde não são exceção, pois prestam, também, um serviço precioso ao governo. Esses teóricos estão, na sua maioria, desvinculados da atividade médica. Por isso ou por aquilo, jamais se entenderam com a ciência médica. Inadaptados ao exercício da medicina e, portanto, sem conhecer de perto o nosso sistema de saúde, buscaram o caminho fácil da retórica vazia. Encastelados em fundações e universidades, onde predomina o pensamento único, esses falsos profetas limitam-se a amplificar opiniões de acadêmicos europeus e americanos, ao mesmo tempo que utilizam, como subterfúgio, o debate sobre o falso dilema, investimento ou gerência, na saúde pública. Dessa maneira, facilitam a vida do governo, pois o problema da saúde no Brasil reside nos orçamentos minguados.

 Coadjuvantes nessa marcha batida, rumo à privatização da saúde, estão alguns sindicatos médicos e conselhos de medicina. Atrelados aos interesses do governo. Agem como amortecedores da luta sindical. Em vez do embate político, com a mobilização da categoria, no enfrentamento de um governo que odeia e despreza os médicos, optam pelo caminho das reivindicações a um Poder Judiciário, sabidamente comprometido com a classe dominante, e da negociação estéril com um Parlamento desacreditado que ainda não regulamentou o ato médico. 

Quanto aos médicos, a bem da verdade, não estão isentos de responsabilidade pela crise na saúde, ainda que desta sejam vítimas e não algozes. Por outro lado, eles não podem ignorar que  é o momento histórico da sua união, em favor de uma política de saúde, de propriedade restrita do povo e não de empresários inescrupulosos à procura do lucro a qualquer preço. 

No mais, lembrar que não há política de saúde sem o respeito à atividade médica. 

* Thelman Madeira de Souza é médico

Tags: Artigo, JB, medicina, sociedade aberta, thelman madeira de souza

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