Jornal do Brasil

Sábado, 18 de Maio de 2013

País - Sociedade Aberta

Carta aberta a Yoani Sánchez

Jornal do BrasilWander Lourenço* 

Minha cara Yoani Sánchez,

com toda sinceridade, preciso dizer-lhe que me sinto triste e envergonhado pela lição de intolerância demonstrada por alguns poucos militantes da sórdida guerrilha do patrulhamento ideológico, supostamente fabricada por recomendações da Embaixada de Cuba ou por orientações partidárias que, decerto, se abalizam pela nostalgia da institucionalização da truculência do regime ditatorial. Em verdade, só me resta pedir desculpas a você pelas deploráveis atitudes destes seres que, à sua chegada ao Nordeste do meu país, se comportaram como indivíduos pouco afeitos ao diálogo democrático e republicano. Diante de tal selvageria desvairada e injustificável, escrevo-lhe para registrar a minha repugnância pela hostilidade em disfarces de patriotismo, de modo a manifestar-me contra todo este vandalismo praticado por revolucionários pré-mirins de segunda categoria, quiçá aprisionados em suas próprias limitações de âmbito intelectual.

Por estas paragens há quem afirme que as manifestações refratárias à sua vinda ao hospitaleiro país ao sul do Equador são orquestradas por seus conterrâneos patrulheiros, forjados pela necessidade de uma espécie de expansão de vigília, a se ramificar pela representação de partidos políticos tupiniquins, solidários ao regime de segregação imposto aos habitantes da ilha latino-americana sob a égide da ditadura castrista desde 1959. Porém, é fato que as marionetes dos ideólogos do comunismo, com barbas e consciência por fazer, não conseguem alcançar a significância de uma sílaba do vocábulo Liberdade, haja vista que são ações reacionárias imputadas por uma frágil ideologia cultivada em lamentável cenário de intransigência e censura.

Destarte, Yoani, lhe peço atenção para o fato de que é preciso absolvê-los em nome da ternura de Che Guevara, porque são miniaturas rebeldes oriundas do partidarismo mais execrável e infame, que mutila a sangue frio a concepção do percurso dialético de uma promissora juventude, ao mesmo tempo em que brota da estupidez mais abissal e retrógrada idealizada por incautos líderes que, decerto, estancaram em décadas passadas por sobre o ódio dos vencidos pela utopia da revolução. 

Antes que prossiga por portos e desertos com má impressão desta terra, digo a você que, embora uma ínfima parte da população se predisponha, por pura bravata juvenil, a distorcer o conceito da hospitalidade pátria pela qual tanto nos orgulhamos, uma legião de brasileiros não se posiciona a favor deste tipo de conduta reprovável, que induz os reacionários a arrotar impropérios contra o direito de expressão. Fique certa de que, no Brasil, não permitiremos que se reproduzam os extremismos da perseguição política dos ditames sectários e despóticos das prédicas castristas.

É necessário dizer que, no episódio de embargo da exibição do documentário Conexão Cuba-Honduras”, em Feira de Santana, Bahia, o contraditório da questão não é a violência contra um registro jornalístico de cunho cinematográfico. Sem receio, posso lhe falar que o que mais incomoda nesta questão é o arranjo da insubordinação que se instaura por lúgubre espetáculo a se esquematizar por sobre instruções arbitrárias e equivocadas, que impulsiona ao ato de proibição. Neste contexto de repulsa e indignação, a reação dos púberes agitadores que, peremptoriamente, se recusaram ao debate a se pautar pelo diálogo democrático em sua plenitude, se interpreta pela rebeldia propícia da flor da idade. 

A prerrogativa de recriminação que imperou no gesto de autoritarismo dos espectadores não poderá ser considerada como uma representação da opinião pública nacional. Isto porque grande parcela da sociedade brasileira não se coaduna com o ideário de repressão de que, a duras penas, nos desvencilhamos sem se olvidar das reminiscências da tortura, do degredo e dos desaparecidos políticos. Por esta razão, minha nobre Yoani Sánchez, me despeço com a convicção de que o povo do meu país não se habilita a admitir que a indelicadeza de baderneiros adeptos da violência gratuita se faça representar pela voz de uma nação em seus princípios básicos de livre-arbítrio e soberania.

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco@uol.com.br

Tags: Artigo, JB, sociedade aberta, wander lourenço, yoani

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