Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Maio de 2013

País - Sociedade Aberta

Setor energético: mais competência e menos discurso

Jornal do BrasilHumberto Viana Guimarães*

Em qualquer país do mundo que se considere minimamente sério, o setor energético – altamente prioritário para o desenvolvimento – é gerenciado por profissionais altamente qualificados e de reconhecido saber técnico. 

No Brasil, infelizmente, na contramão da gestão eficiente, aquilo a que temos assistido nestes últimos 10 anos de administração petista é o aparelhamento do Estado através da politicagem rasteira, medíocre e mesquinha com o preenchimento de cargos sem nenhum tipo de critério. A meritocracia não conta, ficou para trás, pois o mais importante é o “QI” (quem indicou), que tanto pode ser um “coronel” politico nordestino como um adesista e oportunista chapa-branca da tal base aliada. 

O preenchimento de cargos importantes virou um balcão de negócios, começando pela nomeação de ministros ao estilo do período colonial, quando, para exercer um alto cargo, bastava o cidadão ser um apadrinhado de algum “coronel” ou de algum nobre que frequentasse a Corte e fosse amigo do rei, no caso do Brasil, do imperador. 

A verdade tem que ser dita, doa a quem doer, pois no quesito de qualidade técnica dos ocupantes dos diversos ministérios e outros órgãos estamos retrocedendo a passos largos. A falta de conhecimento técnico e a mediocridade permeiam de forma assustadora. Não faz muito tempo, ouvi de um grande empresário a seguinte frase: “Antes do governo petista, eu ia uma vez a Brasília e resolvia cinco assuntos; hoje vou cinco vezes e não resolvo nenhum!" 

A atual crise energética, por exemplo, é resultado direto da incompetência dos responsáveis pelo setor. Numa ridícula disputa de egos para ver quem é mais bajulador do que o outro, é tanta gente falando, dando ordens e declarações que já não sabemos quem de fato manda no setor e dá a palavra final.  Beiram a raia do absurdo as várias declarações desencontradas e incorretas sobre o setor de energia. Vejamos alguns exemplos. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, declarou que “em 2012, 3.500 megawatts (MW) de eletricidade foram agregados ao sistema” (Estadão, 16/01/13). O ministro está muito mal informado,  pois bastaria que ele consultasse o site da Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel (www.aneel.gov.br), e lá veria que, em 2012, houve um acréscimo de potência fiscalizada de 6.700 MW ao sistema (120.600 MW em 2012 e 113.900 MW em 2011). No discurso à nação no dia 23/01/13, a senhora presidente da República Dilma Rousseff cometeu o mesmo equívoco do ministro Lobão, quando declarou que “no ano passado, colocamos em operação 4 mil megawatts” (www.planalto.gov.br). No mesmo discurso a presidente afirmou que “este ano, vamos colocar mais 8.500 megawatts de energia. Temos uma grande quantidade de outras usinas e linhas de transmissão em construção ou projetadas. Elas vão nos permitir dobrar, em 15 anos, nossa capacidade instalada de energia elétrica, que hoje é de 121 mil megawatts”. 

Analisemos as duas partes do discurso, ou seja, a potência que será agregada este ano e o crescimento previsto para os próximos 15 anos. Diga-se de passagem que os números da potência a ser agregada ao parque gerador durante 2013 apresentados pela presidente Dilma são mais ou menos coincidentes com aqueles apresentados nas declarações do ministro Lobão e do presidente da Empresas de Pesquisa Elétrica (EPE), Mauricio Tolmasquim. Assim sendo, gostaria imensamente que as autoridades do setor detalhassem obra por obra e suas respectivas potências, pois, pelos vários empreendimentos em construção constantes do site da Aneel, não há a menor possibilidade de se alcançar essa potência (8.500 MW) durante 2013. 

Para passar a ideia de que não existe risco no fornecimento de energia elétrica, as autoridades cometem o grande erro em considerar no total da potência a ser disponibilizada durante 2013 que tanto a UHE Santo Antônio (3.150 MW de potência instalada e 2.218 MW de energia firme) como a UHE Jirau (3.750 potência instalada e 2.184,6 MW de energia firme) estarão totalmente concluídas até o fim deste ano. A bem da verdade, é importante ressaltar que, pelo cronograma oficial aprovado pelo MME e Aneel, estas duas hidrelétricas só serão concluídas (no mais tardar) no início de 2016. A UHE Santo Antônio já está gerando (700 MW) de forma escalonada desde março de 2012. No caso de Jirau, o início da geração será a partir de 1º/03 (no mais tardar em 1º/05). 

No tocante à declaração da presidente Dilma, de que “temos uma grande quantidade de outras usinas e linhas de transmissão em construção ou projetadas” e que “elas vão nos permitir dobrar, em 15 anos, nossa capacidade instalada de energia elétrica, que hoje é de 121 mil megawatts”, é importante ressaltar que para que se possa alcançar o preconizado pela presidente Dilma, é necessário que sejam agregados uma média anual de 6,67%, o que equivale a 8 mil MW. Será um grande desafio, já que nos últimos seis anos a média de crescimento anual do parque gerador (energia fiscalizada) foi de 4,68%, equivalente a 4.400 MW/ano. 

Em tempo: no comunicado “ANEEL aprova alteração do cronograma de implantação da UHE Jirau”, de 04/02/13 (www.aneel.gov.br), está escrito que “a UHE Jirau está localizada no Rio Madeira, em Rondônia, e possui 300 megawatts de capacidade instalada. O projeto inclui a instalação de 44 turbinas e a área do reservatório tem 258 quilômetros quadrados. (PG/JS)”. Seria de bom alvitre que a Aneel fizesse a correção do citado texto, pois a UHE Jirau tem 3.750 MW de potência instalada distribuídas entre cinquenta turbinas com 75 MW de potência. 

* Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento.

Tags: Artigo, energia, humberto viana guimarães, JB, sociedade aberta

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.