Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Maio de 2013

País - Sociedade Aberta

Religação

Jornal do BrasilLuiz Nascimento Silva

O protestantismo surge como resposta germânica aos excessos praticados pela Igreja Católica ao longo de toda Idade Média. Não tenho dúvida em que a Igreja Católica se afastou da essência do Cristianismo, das idéias centrais de Jesus Cristo, tal como descritas nos Evangelhos sinóticos e em S. Paulo. Foram esquecidas por um projeto político e por uma prática de dominação. O fausto e a riqueza material da Cúria Romana chocam-se frontalmente com o núcleo humano essencial do cristianismo.

Por isso, acho extremamente relevante que se analise com atenção a nova realidade do mapa religioso que o Censo brasileiro de 2010 nos trouxe e cujas fronteiras e demarcações precisam ser mais bem estudadas e decifradas.

Entre 1960 e 2010, o Brasil viu a parcela de sua população que se declara católica cair de 93,1% para 64,6%. A queda foi constatada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com as novas informações do Censo 2010. 

O Brasil é um país cada vez menos católico, embora essa ainda seja a religião majoritária. A queda da população católica foi recorde entre 2000 e 2010. Até 1991 os católicos eram 83% da população. Em vinte anos essa população católica diminui 22%, ou seja, em proporção, a Igreja Católica perdeu mais de um quinto de seus fiéis.

De outro lado, a população de evangélicos no Brasil aumentou para 44%. Eles já vinham crescendo em ritmo acelerado na década de 1991 a 2000 e nesse novo Censo saltam de 15,4% para 22,2%. Acho esse fato importantíssimo e que deve ser objeto de estudos e reflexões mais profundas. Não tenho conhecimentos específicos para tal, possuo apenas lucidez e coragem para expor o problema. Adianto algumas hipóteses que fazem nexo para mim.

A Igreja Católica continua a ser praticada e exercida com uma liturgia imutável distante do homem contemporâneo. Os temas centrais da população especialmente a de baixa renda são solenemente ignorados pela prática nas Igrejas. Isso não quer dizer que não haja um núcleo fundamental nas comunidades de base trabalhando incessantemente. Parte desse núcleo, inclusive, em sua origem veio a ajudar a formação do Partido dos Trabalhadores - PT. Esse núcleo, entretanto é voto vencido nas questões atuais da Igreja Católica no Brasil que continuam a ser pautadas pela visão da Cúria Romana.

Uma constatação óbvia é que os padres mais talentosos, mais carismáticos, com maior poder de comunicação são afastados, desviados das igrejas e paróquias onde começam a fazer sucesso, pela visão retrógrada que uma missa alegre e concorrida seja contrária aos cânones eclesiásticos. No lugar desses padres nas principais paróquias do Rio - faço questão de frisar que essa observação se circunscreve ao Rio ainda que intua que se multiplique pelo Brasil afora - são colocados padres ortodoxos que rapidamente conseguem esvaziar as igrejas com enorme competência clerical. Não há quebra dos cânones, mas tampouco existem fiéis a engrossar o rebanho...

O culto evangélico é alegre e comunicativo. O homem quer e necessita de interação. O cidadão comum que tem uma vida dura em seu quotidiano se debate horas e horas no precário sistema de transporte, não têm um sistema de saúde, nem uma rede de segurança que o proteja, encontra nesses templos, ao menos, um interlúdio para sua solidão. Ele canta, ele repete mantras com seus amigos e se sente acompanhado.

Além disso, os sermões evangélicos falam com enorme freqüência de problemas materiais, das diversas formas pelas qual o homem pode conseguir os recursos materiais que necessita para sua existência na terra. Repito com clareza: recursos materiais. Não é feio, não é anticanônico no culto evangélico falar em dinheiro, ao contrário, esse tema é recorrente e é enfrentado de forma quotidiana.

Não estou aqui fazendo apologia de nenhuma religião, pois, todas num certo sentido me interessam igualmente. Examino a questão religiosa em sua dimensão permanente, semântica, derivada do latim religare, ou seja, todo movimento do ser humano em sua religação com o divino. Estou apenas querendo sublinhar como a questão religiosa continua central e atual. Esclareço, ainda, que sou um místico, o que não me impede de refletir criticamente sobre o que vem ocorrendo.

O impacto das religiões sobre o ambiente intelectual e cultural dos países ainda é intenso, ainda que isso não seja mais sentido nos países laicos e democráticos. Um conjunto gigantesco de nações continua, entretanto sobre o impacto da religião que acaba por contaminar, bloquear, a vida quotidiana dos seus cidadãos e em conseqüência dos seus artistas e pensadores.

O sírio Ali Asmad Said Esber, mais conhecido pelo pseudônimo Adonis, falando sobre o Islã de forma geral salienta que: “Há uma regressão no mundo árabe. Nossas sociedades ainda são muito medievais, em certo sentido, porque as leis da religião continuam a regular os direitos das mulheres, as liberdades individuais, vemos até a cultura com olhos religiosos. Não podemos conceber a refundação de nossas sociedades se não há separação entre religião e Estado, entre religião e cultura, entre religião e política. Enquanto não concretizarmos a separação entre Estado e religião, não teremos nada. Trocamos um regime por outro, mas as sociedades não mudam”.

No meu sentimento pessoal, o último Papa a incarnar essa Igreja Católica mais próxima do cristianismo foi João XXIII. Eu era muito pequeno durante o seu Papado, mas me recordo com clareza da simpatia que minha mãe que era profundamente religiosa e profundamente anticlerical em iguais proporções, tinha por ele. Depois fui ler e constatei que ela tinha razão. João XXIII era apaixonado pela missão pastoral da Igreja e sendo filho de lavradores conhecia a vida da população mais simples de forma distinta de seus antecessores. O Concílio Vaticano II que ele presidiu em 1962 tinha por objetivo não combater erros, “mas por a Igreja em dia (aggiornamento)”. Dizia na ocasião que pretendia “varrer a poeira do Trono de Pedro”. Parte das decisões desse Concílio foi implantada, parte foi esquecida.

Começa a existir certo consenso entre os especialistas que o Concílio Vaticano II foi o acontecimento religioso mais importante do século XX. Com isso a figura histórica de Angelo Giuseppe Roncalli, João XXIII, il Papa buono, passa a ser reconhecida em sua dimensão efetiva  demonstrando-se assim que a importância de sua obra deriva mais do grau de inovação do que por sua extensão, pois o seu papado em número de anos foi pequeno.

Seus sucessores Paulo VI ( que acabou terminando o Concílio com o falecimento de João XXIII), João Paulo II e Bento XVI não seguiram nessa direção tão claramente. João Paulo XII foi o mais independente da “linha romana” por ser polonês tendo sido o primeiro papa não - italiano em 445 anos. Teve o terceiro mais longo pontificado de 26 anos, o que lhe permitiu deixar sua marca e obra em sentido diverso de João XXIII. Sua personalidade carismática foi fundamental para a liberdade política de seu país defendendo o sindicato Solidariedade comandado pelo sindicalista Lech Walesa que acabou por se tornar o primeiro presidente polonês após a derrocada do comunismo.

 Contraditoriamente em relação à América Latina foi extremamente conservador afastando certas linhas da Teologia da Libertação por suas afinidades com o marxismo e permitindo, por exemplo, a substituição de D. Helder Câmara pelo bispo José Cardoso Sobrinho apenas para enquadrar essa linha progressista no Brasil. Esse afastamento foi muito mal recebido pela comunidade local. Ou seja, na Europa agiu de uma forma e formulou um diagnóstico, aqui na América Latina agiu de outra forma e formulou diagnóstico distinto para um problema semelhante. 

No passado, os bispos chegaram a ser escolhidos por votação da própria comunidade. Depois a Santa Sé avocou o poder único de escolher os bispos em todo mundo. O conjunto dessas decisões dessa linha centralista da Igreja Católica deve explicar em parte sua perda de espaço no Brasil e em outros países.

O curioso é que o cristianismo surge como uma proposta nova, revolucionária que se infiltrou e se firmou em pleno Império Romano, o mais poderoso do mundo ocidental, seja por sua extensão territorial, seja pelo poderio militar e econômico, seja pela imposição mundial de sua legislação aos povos vencidos. Assim, apenas um conjunto de idéias realmente novas poderia penetrar um Império tão sólido durante tantos séculos e defender o monoteísmo dentro de uma sociedade politeísta, trazer uma visão humana e solidária para uma sociedade eminentemente material e dividida em rígidas diferenças sociais. Porque esse mesmo conjunto de crenças e convicções perdeu espaço, terreno e demografia no Brasil e no mundo é tarefa que deveria ser estudada e entendida em maior profundidade.

O conjunto das religiões tem mais pontos em comum do que divergências. Todas elas se analisadas como um corpo de idéias, conceitos e práticas são profundos e ajudam o homem a compreender melhor o mundo e a equilibrar sua existência. Entretanto, com freqüência esse mesmo conjunto de religiões se afasta de sua Paidéia original, para criarem instituições nas quais as mensagens espirituais são esquecidas e abandonadas em prol de um projeto de poder. Nesse momento deixam de ser interessantes do meu ponto de vista.

A renúncia do papa Bento XVI abre uma nova oportunidade para a Igreja Católica se renovar. Em suas manifestações posteriores ele disse que “fiz isso em plena liberdade para o bem da Igreja”. Falou que pensou de forma particular “nas divisões do corpo eclesial que desfiguram a Igreja” bem como na “ hipocrisia religiosa”. Cada uma dessas palavras deve ser analisada com enorme atenção. O papa após a renúncia tem se expressado de forma livre e insistido que a Igreja necessita de uma “verdadeira renovação”.

 Ao antecipar o término do seu papado, ele obrigará a convivência de um novo papa com um ex-papa, esvaziando a mística de monarquia individual do Vaticano. Minha geração jamais assistiu a um gesto dessa grandeza. Mesmo considerado um teólogo brilhante, Bento XVI foi tido como um papa sem força e carisma especial. Entretanto, com sua renúncia cria um fato político novo que irá influenciar os destinos do mundo católico. 

* Luiz Nascimento Silva é advogado. Ex - ministro da Cultura do Governo Itamar Franco. Ex - secretário de Cultura do governo Aécio Neves. 

Tags: Artigo, JB, luiz nascimento silva, papa, sociedade aberta

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