Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Maio de 2013

País - Sociedade Aberta

"A cidade morreu junto"

Jornal do BrasilSelvino Heck*

A manhã desejada e o futuro não chegaram para 238 jovens estudantes de Santa Maria, Rio Grande do Sul.

Chovia em Brasília no domingo 27 de janeiro. Não saí para caminhar, como costumo fazer quando estou na capital federal em domingos. Achei um filme dos antigos, anos 50, na televisão. Só mais tarde, quando entrei na internet, fui saber do que tinha acontecido e ainda estava acontecendo na bela Santa Maria, cidade universitária, no centro do Rio Grande. 

O domingo segue lentamente, parece que não termina nunca. Final da tarde, dá uma estiagem, vou caminhar, observar o céu, ver as árvores e a vida, organizar o pensamento e as mil perguntas. Volta a chover enquanto estou na rua. Deixo-me molhar por inteiro, a água penetrando todos os poros, a água escorrendo pelos braços, pelo corpo inteiro, como se espantasse ou ajudasse a espantar todas as dores. Choro. As lágrimas se confundem com os pingos de água. 

A dor não passa. Dor demais. Não quero falar com ninguém. Prefeitos telefonam querendo saber se acontecerá o Encontro Nacional de Prefeitos e Prefeitas no dia seguinte, 28, segunda. A presidenta Dilma já tinha interrompido sua agenda no Chile e voado para Santa Maria. Sequer consigo escrever. Pelas 23 h, posto mensagem no facebook: “Compas. Vou dormir. Confesso que não consegui escrever nada o dia inteiro. Li agora as dezenas, centenas de mensagens de todas e todos de todos os cantos do Brasil. Não há o que dizer. Tinha programado para hoje, dia livre e de descanso, responder a vários e-mails de amigos/as, companheiros/as que estou devendo. Não deu. Que fazer? Que dizer? Nada mais, ir dormir, tentar dormir, pra ver se amanhã acordo pesadelo”. 

O pesadelo ainda não acabou. Quase cada dia, outras mortes. Esta semana leio reportagem no jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul. Descubro um sobrenome conhecido: Segabinazzi. Tiago Segabinazzi. Tem foto no jornal, de uma viagem de estudo com seus colegas.  Seu primo, também Tiago, estava na boate e ajudou a salvar pessoas. Um Tiago Segabinazzi morreu. Outro Tiago Segabinazzi está vivo. A irmã, Mariane, na última hora, desistiu de ir à boate. Será o Tiago parente da Adriana Segabinazzi, advogada companheira que trabalha na Secretaria Geral da Presidência? Levo-lhe o jornal. São primos. A dor volta com força de novo.

Fiquei dias matutando dias se escreveria esta crônica, espécie de memória misturada com mil outras coisas. Um dia decidia que sim. Outro dia decidia que não. Até que veio a história do Tiago e a entrevista de alguém na televisão, mulher, de quem não guardei o nome,  dizendo: "A cidade morreu junto". Resolvi escrever. Tentativa de esquecimento? Purgação? Superação? Ou tudo isso junto e muito mais". 

A cidade morreu junto. A frase é tão triste quanto dolorosa. E eu poderia dizer:  o Rio Grande morreu junto. E até o Brasil.      

Conheço Santa Maria faz muitos anos. Lá atrás, anos 70, nas atribulações da faculdade de teologia da PUC-RS, de onde acabei expulso, e da Teologia da Libertação, conheci dom Ivo Lorscheiter, um dos inspiradores da CNBB. No início dos anos 80, tive contato com o Movimento Universitário de Santa Maria (Musm). Nas palavras de Clóvis Guterres, “esse movimento, sob a inspiração do padre Clarindo Redin (que, aparte meu, morou com um grupo de jovens na Vila Jardim, Porto Alegre, em tempos em que eu morava nas vilas da Lomba do Pinheiro e estivemos juntos nas pastorais e no Ceca de São Leopoldo) foi na época espaço de troca entre um cristianismo mais aberto e comunitário e o espírito político dos universitários, reprimido em todas as instâncias da sociedade política”.

Lá, anos 80, conheci um metalúrgico, Valdeci Oliveira. Juntos, construímos a Pastoral Operária/RS. Depois, tornou-se vereador, prefeito de Santa Maria, e hoje é deputado estadual gaúcho. Através da Pastoral da Juventude e grupos de jovens, conheci muitos companheiros/as, como Lauro Magnago, que acabou assessor no meu gabinete na Assembleia Legislativa. Conheci o hoje prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer, colega deputado constituinte gaúcho, embora estivéssemos em partidos diferentes, o hoje governador Tarso Genro, que cresceu em Santa Maria, o poeta e autor de belas letras de música gaúcha como Tropa de Osso, Humberto Gabbi Zanatta, e comigo e outros publicou livros de poesias, o Em mãos I, II e III. E, mais recentemente, tenho ido à Feira Brasileira e Latino-Americana de Economia Solidária, sob a liderança da irmã Lourdes Dill, coordenadora do Projeto Esperança/Cooesperança, ela, tantas e tantos mantendo acesa a chama da luta pela igualdade e por um mundo melhor e solidário.

Há tantos outros acontecimentos, lembranças, rostos, campanhas eleitorais, debates, encontros, já no governo Lula, da Rede de Educação Cidadã (Recid). Há muito tempo Santa Maria está no meu coração. Agora, é saber por que aconteceu. Agora, é apurar responsabilidades. Agora, é punir quem deve ser punido. 

A dor das famílias não vai passar. A minha dor, a nossa dor vai custar a passar. Não é uma dor apenas individual, é também coletiva. "A cidade morreu junto". Nós morremos junto. E isso não pode mais acontecer. Nem pode mais acontecer a morte de tantos jovens pelo crack. Como não pode mais acontecer o assassinato de jovens, especialmente pobres, de periferia e pretos.

Jovens não são futuro, nem apenas esperança. Jovens são hoje. Constroem hoje o futuro e a esperança. Constroem hoje Santa Maria. Constroem hoje o Rio Grande. Constroem hoje o Brasil. 

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: aberta, coluna, heck, selvino, Sociedade

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