O mestre-sala e a Colombina
Deu-se para desespero da porta-estandarte o desembaraço de paixão entre o mestre-sala e a Colombina. Diante da surpresa e escândalo, a inconsolável bailarina de terreiro rasgara a bandeira da escola e os enfeites do folguedo, enquanto maldizia o tempo de querência e dedicação. Lembrou-se de que, apesar da indiferença dos foliões da avenida, quando Lina abriu a porta do barraco percebeu que a pastora Noêmia acompanhava, aos berros, o samba de um compositor portelense, Jair do Cavaquinho, que tocava no aparelho de rádio da vizinha: ”Fez ferir seus companheiros / Com as infiéis conquistas / Tanto fez, que tanto fez / Que acabou se apaixonando / Por um volúvel sambista”.
Ao percorrer o asfalto com seu ritmo e soberba, o mestre-sala tropeçou por encanto em luz de Colombina no desfile de segunda-feira. O negro ladino e fagueiro fez a corte à imperiosa dama a se conquistar com a lábia de sambista, mas diz que foi o destino quem deu as cartas em parada de má sorte. Presunçoso, desdenhou dos conselhos da preta velha rezadeira; e, ao adentrar a casa, logo após a esposa traída e abandonada, assoviou a melodia da canção do rádio: “Vendendo doce na feira / Eu vi aquela cabocla / Que há tempos lá na Portela / Andava de boca em boca”.
Decidido, enfiou no surrão o chapéu de palha, o tamanco e duas mudas de roupa. Navalha no bolso, o malandro desceu o morro sem olhar o passado, com altivez de quem se vai embora para nunca mais voltar; e, sem se dar conta dos destroços da morada de madeira e zinco, ensurdeceu-se diante do coro dos rebentos em prantos pelo inusitado adeus de ocasião. Envaidecida e garbosa, a Colombina vestiu-se com trajes de marquesa, retocou pintura da face diante do espelho após banhar-se com água de cheiro. Abancada em sobrado, derreteu-se em afabilidades ao Hércules de origem africana, ávida por deleitar-se em seus braços negros sem remorso.
Era Quarta-Feira de Cinzas. No cais do porto em companhia de uma polaca de alcoice e sotaque pecaminoso, o Pierrô resolveu-se por retornar ao domicílio, aborrecido que se encontrava com as carícias de aluguel em tempos de folia. Ao se deparar com a cena de adultério, o consorte da Colombina não se fez de rogado a desafiar o mestre-sala para um duelo, à garrucha, às três da tarde, no antigo Largo da Cadeia. Não perdeu as estribeiras, pois que se desviou das mágoas e foi-se embora sem bater a porta ou praguejar, quiçá por não ter precisão de trincos ou rancor. “Um Pierrô apaixonado / Que vivia só cantando / Por causa de uma Colombina / Acabou chorando” – ainda se recordou dos versos da música de Noel Rosa.
E riu de si mesmo por não lavar a honra com sangue e valentia. Decerto, os capoeiras zombariam de sua humilhação e covardia. Apesar da reprovação pública, foi ao morro ter com a porta-estandarte, mas antes passou no Estácio disposto a convidar alguns músicos conhecidos de boêmia, para uma serenata debaixo da janela da cabocla desprezada pelo ingrato do mestre-sala. A caminho do barraco, estancou na barraca de dona Sinhá Preta para encomendar a cachaça e os petiscos da folgança. Ao término da primeira garrafa de pinga, o Pierrô anunciou que iria pedir a mão da cabrocha e que não “admitiria negação de matrimônio, porque, se o saltimbanco lhe roubara a Colombina, Lina Bailarina seria a eterna porta-estandarte da Unidos do Meu Coração”.
A notícia do casório entre o Pierrô e a porta-bandeira se espalhou pelo morro de tal modo que os foliões remendaram as fantasias do cortejo e carregaram a noiva em andor de procissão profana. Os ritmistas dos arrancos e cordões se alinharam em orquestra de percussão, sopros e cordas; e as baianas, com os seus tabuleiros de manjares e quitutes, ofertavam a felicidade em ritual de celebração a recortar as ruas da São Sebastião do Rio de Janeiro. Anônimos, o mestre-sala e a Colombina se perderam em meio à multidão, sem se aperceberem de que o espírito do festejo de Momo se perpetuava pelos malabarismos do pandeiro e dos tamborins, a contrastar com os ruídos da cuíca que, de aflição, roncava a divulgar que o fulgor da vida não passa de uma ilusão de Carnaval.
* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). -wanderlourenco@uol.com.br
