Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Maio de 2013

País - Sociedade Aberta

A força do perdão

Jornal do BrasilRoberto Muñoz*

De todas as famílias envolvidas na tragédia de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, foi arrancada uma parte de suas vidas. A inversão do caminho natural, com o pai enterrando o filho, é por demais dolorosa para que se perca tempo esmiuçando uma ferida desse tipo, tão devastadora em sua raiz.

Somente por meio do Amor, respeitando-se o sofrimento que será sentido no decorrer do processo, pode ser ultrapassada tamanha derrota, o que talvez possibilite a cada um dos sobreviventes envolvidos percorrer uma difícil caminhada. O homem, apesar do moderno mundo contaminado de inversões valorativas, pode ultrapassar um derradeiro momento em sua vida, desde que o foco seja o próprio coração, e não a região do intelecto, dos instintos ou da mera sexualidade.  

Acertou Berdiaev em suas Meditações sobre a existência – não precisamos de mais “comunicação”, mas de “comunhão”! Há na comunicação um elemento retórico de sobrevivência argumentativa oposta à verdade, pois ela busca o poder e a influência. Já na comunhão é a união no Amor que prevalece, na entrega espiritual da pessoa por algo mais elevado que a própria vida. Eis a santidade do sacrifício.

O espírito dos tempos atuais promove a cultura do “protesto” como algo pleno, em si, de soluções. O coletivo, sempre preocupado com ações centrifugamente sociais, dá as mãos e abraça montanhas, laguinhos, encostas, tudo em prol de um “mundo melhor”. Assim, o ato pessoal é colocado de lado, à face de seríssimas responsabilidades massificadas mui atentas a situações muito distantes da necessidade íntima e discreta daquele que precisa, simplesmente, de carinho. 

A procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, que acontece anualmente em Porto Alegre, no dia 2 de fevereiro, pode ser um dos acontecimentos espirituais mais importantes da história para a alma gaúcha. Tem de vencer a compaixão, para que as lágrimas não se transformem em revanchismo e necessidade de sangue. Torna-se, desta forma, a re-união familiar uma necessidade imperiosa, para que o homem não pereça isolado, logo, emocionalmente carente, diante de sedutoras ofertas imediatas, sejam elas expostas através do oportunismo político – sempre sequioso por “reformas” – ou por meio da crueldade exercitada por um tipo de mídia que se deixa contaminar pela loucura circense que a massa sem rosto tanto aprecia.

O Brasil não pode esquecer que a sua origem espiritual também reverberou simbolicamente no surgimento da imagem de Nossa Senhora Aparecida, justamente, para pescadores! Isto não foi um mero “acaso” do destino – típico pensamento da mentalidade pragmática que desconhece questões acima da esfera horizontal. Não, isto foi uma bênção divina que tanto um homem do campo quanto um poeta pode perceber. Basta que o coração esteja aberto ao próximo como a si mesmo está.

*Roberto Muñoz é escritor.

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