Mais razão, menos emoção
Um consenso positivo começa a se consolidar entre o gestores da crise mundial – ou seja, FMI, grupo dos sete grandes, políticos do centro democrático – no sentido de que é preciso a austeridade com o crescimento. Sem crescimento não existe uma saída tranquila da crise, e esta retomada passa obrigatoriamente pelo investimento público e, principalmente, privado.
A receita é conhecida e precisa de entendimento político em alguns países importantes, como a França e a Espanha. Investidor só sairá da posição de reserva e prudência se tiver um clima favorável aos negócios. Isso passa pela rentabilidade, desburocratização, flexibilização da legislação trabalhista, respeito ao pactuado e garantia jurídica quanto a questões ambientais.
Existe um bom estoque de projetos atraentes no mundo, a começar pelos EUA, visivelmente com problemas de infra-estrutura nos portos e aeroportos e no setor de energia elétrica, especialmente na distribuição cuja rede tem se mostrado frágil diante das alterações climáticas. Mesmo na Europa, há muita coisa por fazer, dependendo de licenciamento e modernização das relações de trabalho. A França enfrenta dificuldades políticas, tem um governo fraco, desgastado em menos de um ano de mandato. Tudo pelo dogmatismo dos socialistas, que insistem em defender um Estado social fora da realidade.A União Europeia corre riscos pela ausência de uma orientação de austeridade comum.
O Brasil precisa crescer. Tem de agir com coragem e pragmatismo. Com esse clima de desconfiança, vamos continuar a ter investimento apenas com dinheiro do BNDES, que anda emprestando quase que cem por cento dos projetos e, mesmo assim, concentrados nos grandes grupos. O mundo precisa é de empresas médias, na indústria e no agronegócio. Precisa-se estimular a pesquisa e empregar.
E vai superar as dificuldades quem for mais rápido, entender essa nova realidade. Ficar no proselitismo ideológico, na prioridade eleitoral, não levará a lugar algum, e, hoje, uma parcela significativa dos povos percebe o preço da demagogia e da distribuição de “bondades” fora da realidade. A crise atual tem muito de impunidade aos maus gestores públicos e privados ligados ao setor financeiro em especial.
Erro grave é tratar politicamente uma crise econômica que é mundial , exige habilidade e uma orientação firme para contornar dificuldades. Temos bons exemplos na latino-América, pouco falados entre nós. Chile, Colômbia , México e Peru .
Ganhar tempo, jogar para a frente as decisões estratégicas será um erro. A fatura pode tardar, mas chega. Mais do que nunca deve se pensar na próxima geração e não na próxima eleição.
No mais, o preço do agravamento da crise pode trazer crises políticas capazes de fazerem o mundo mergulhar em um verdadeiro caos, como aquele já vivido em países como Síria, Egito, Líbia, e que pode ocorrer na França, hoje sem um guia e uma mão firme. A crise precisa ter solução racional. Senão, terá de buscar ordem pela via policial. Ou formalizar o caos . O momento não é de proselitismo e, sim, de criatividade e coragem.
* Aristóteles Drummond é jornalista. - aristotelesdrummond@mls.com.br
