Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Maio de 2013

País - Sociedade Aberta

Embrulho de inhames e rapaduras

Jornal do BrasilWander Lourenço*

Procurava arranjar maneira mais propícia de se iniciar um artigo sobre a contenda política entre Portugal e Brasil, no tocante ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, quando me deparei com o capítulo do livro do historiador Brito Broca, A vida literária no Brasil 1900, que faz menção a uma polêmica entre Silvio Romero e José Veríssimo, publicada no Jornal do Commercio, em 1909. Ao me utilizar da frase pejorativa originária de um arranca-rabo do século 19 para intitular a crônica, a princípio, o leitor pode interpretar que eu me apropriara da expressão “embrulho de inhames e rapaduras” para menosprezar o episódio protagonizado por detratores da unificação de âmbito linguístico.    

Sem eximir-me das responsabilidades que, de fato e direito, competem aos usuários do idioma de Camões e Machado de Assis, não me esquivarei da discussão, de modo a pesar o equilíbrio das objeções e vantagens da reforma ortográfica. Em primeiro lugar, não julgo ser necessário repudiar a resistência ideológica dos escritores portugueses, que, freudianamente, se instaura como demonstração dos instintos maternos a proteger a cria das intempéries dos trópicos – barbarismos, antropofagia de hifens, abusão de gerúndios, beribéri consonantal, cacófatos, banzo de trema e solecismos –, que ameaçariam a soberania do colonizador responsável pelo patrimônio de origem latina.  Todavia, é preciso dizer que não se trata de uma proposta de emancipação idiomática, condizente com o processo de pós-independência idealizado por intelectuais do século 19, que reivindicavam a criação de um padrão menos rígido, que se distanciaria do aprisionamento imposto pela sintaxe lusitana, de modo a se constituir a partir da ficção que se faz representar pelo projeto de nacionalidade romântico.    

Satiricamente, a questão fora aventada pelo ficcionista Lima Barreto, em seu Triste fim de Policarpo Quaresma. Observa-se que, quando o Major Quaresma expede ao Congresso Nacional o requerimento em que exige a substituição da língua portuguesa pelo tupi-guarani como idioma oficial da pátria, subentende-se que a discussão resvala na antiga exigência de uma autonomia linguística oriunda da brasilidade orquestrada porJosé de Alencar e Gonçalves Dias. Ocorre que a questão ortográfica contemporânea, em hipótese alguma, abarca as propensões deste ideário de desintegração da língua portuguesa, a que se apregoava por uma conjuntura de libertação em toda a sua plenitude revolucionária de cunho patriótico cultuado pelo Romantismo. 

Neste contexto de repúdio embrionário das convicções refratárias ao acordo ortográfico, quiçá seja imprescindível arrazoar que as adequações linguísticas se tornam indispensáveis, sobretudo, quando se prioriza a preservação do registro escrito de forma homogênea e unilateral, ainda que eu concorde com a reclamação de que a permuta de hifens por rr e ss, prejudica esteticamente a estrutura física da última flor do Lácio.  Contudo, se faz necessário argumentar que, a partir do instante em que se propõe a unificação dos padrões ortográficos assinados por chefes de Estado das nações lusófonas Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Guiné-Bissau, países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), configura-se uma espécie de pergaminho jurídico, que jamais poderá admitir rasuras ideológicas de parte de uma intelectualidade reacionária e retrógrada, que ainda se prevalece da bravura dos marinheiros de dom Manuel, o Venturoso, a semear por áfricas, ásias e brasis o idioma português no bojo da expansão dos domínios ultramarinos da Coroa Portuguesa.     

Neste contexto de bravatas heroicas e pirraça, a presidente da República, Dilma Rousseff, por intermédio do Decreto nº 7.875, de 27 de dezembro de 2012, prorrogara a implantação do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Imagina-se que com o intuito de que os desbravadores do Brasil-colônia se adaptassem às novas regras idiomáticas implantadas por decisão irrevogável, de maneira que mais do que impulsionar o mercado editorial se visasse a revitalizar o idioma sob a égide da consolidação de um arcabouço gramatical a navegar por oceanos, não por precisão de tornar-se o Brasil um império colonial, mas, sim, um imenso Portugal, com guitarras e sanfonas a ritmar a pororoca amazônica que desagua no Tejo. 

*  Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco@uol.com.br

Tags: aberta, coluna, lourenço, Sociedade, wander

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