Manter, melhorar, transformar
A confrontação e a visão crítica são necessárias para se chegar à verdade
Na carona de Leonardo Boff, que escreveu estes dias Atitudes face à crise atual, e em ritmo de pós-férias, fui descobrir escritos e reflexões amarelados de décadas atrás sobre o Brasil e o mundo.
Escreve Leonardo Boff: “Ninguém face à crise pode ficar indiferente. Urge uma decisão e encontrar uma saída libertadora. É aqui que se encontram várias atitudes para ver qual delas é a mais adequada a fim de evitarmos enganos”. E ele lista vários tipos de atitudes. A dos catastrofistas: a fuga para o fundo. Os conservadores: a fuga para trás. Os utopistas: fuga para a frente. Os escapistas fogem para dentro. E a que lhe parece a mais correta e razoável, a dos responsáveis: enfrentam o aqui e o agora.
Em 1975, escrevi um texto longo, na verdade um estudo, para a Faculdade de Teologia, mais de 70 páginas, com o título Uma análise do subdesenvolvimento brasileiro, onde digo na Introdução: “O subdesenvolvimento é uma realidade e uma situação que vivemos todos os dias e que, portanto, é preciso saber interpretar e explicar. Outra não é a missão a que se sente chamado o universitário brasileiro da década de 70. A confrontação e a visão crítica são necessárias para se chegar à verdade. Apesar de as informações serem, muitas vezes, manipuladas e as dificuldades serem amplas e de todos os tipos. A minha visão é, sobretudo, uma visão cristã e humanista, uma visão, portanto, a partir dos pobres e oprimidos, uma visão não apenas econômica mas global do homem e do mundo”.
No primeiro semestre de 1979, “alguns frades, estudantes de filosofia e teologia (entre outros, Sérgio Görgen, Érico Hickmann, Arcides Favaretto, Vilso Antonello e eu) sentiram a necessidade de debater e aprofundar certos assuntos importantes que na faculdade recebiam muito pouca ou nenhuma atenção dos alunos. Nesta perspectiva, surgiu um grupo disposto a se reunir uma vez por semana e, em cima de leituras, aprofundar nossos conhecimentos sobre franciscanismo, Igreja, realidade brasileira, educação etc”. O grupo, em março de 1980, desfiou um conjunto de textos, fruto de seus estudos e debates: origem e desenvolvimento do capitalismo; modo de produção do capitalismo; desenvolvimento, modernização, dependência; o capitalismo dependente e suas ideologias; o operário no sistema capitalista; o operário e a fábrica; questão agrária – o drama do homem do campo.
O que fazer em 2013? Em 1975, no final da reflexão sobre o subdesenvolvimento brasileiro, eu perguntava: “Por fim, a responsabilidade de cada um. Qual o papel, a missão minha, de cada um? Certamente, primeiro é preciso estar bem atento ao que acontece, ter um senso crítico acurado e bem construído, o que hoje não é muito fácil, onde os meios de comunicação comandam e formam a opinião pública, onde a propaganda cria desejos, necessidades e aspirações. Adquirido o necessário senso crítico, cada um pode se perguntar o que, efetivamente, pode fazer para tentar mudar a situação. Alguma coisa sempre é possível fazer. Mesmo que se tenha que ser profeta. Ou, às vezes, seja preciso sofrer. Mas sofrer, se sofre de qualquer maneira. A angústia está no centro do homem do século 20. Esta angústia deve ser vencida, e cada um deverá descobrir o que deve, pode ou não pode fazer. O subdesenvolvimento é um processo a ser superado e vencido. É a caminhada do homem na sua eterna história pelo mundo”.
Leonardo Boff, quando fala dos responsáveis que enfrentam o aqui e o agora, escreve: “São aqueles que elaboram uma reposta; por isso os chamo de responsáveis. Não temem, nem fogem, nem se omitem, mas assumem o risco de abrir caminhos. Buscam fortalecer as forças positivas contidas na crise e formulam respostas aos problemas. Não rejeitam o passado por ser passado. Aprendem com um repositório das grandes experiências que não devem ser desperdiçadas sem se eximir de fazer as suas próprias experiências. Os responsáveis se definem por um a favor e não simplesmente por um contra. Também não se perdem em polêmicas estéreis. Mas trabalham e se engajam profundamente na realização de um modelo que corresponda às necessidades do tempo, aberto à crítica e à autocrítica, dispostos sempre a aprender”.
A velha pergunta recoloca-se em 2013, está na ordem do dia. Apenas manter o que conquistamos? Apenas melhorar os avanços? Ou continuar a transformação? Há uma oportunidade histórica. Há uma crise nos países centrais que deixa vislumbrar ou até exige novos caminhos. Há movimentos sociais e populares pensando o futuro. Há uma América do Sul e Latina em libertação do jugo colonial e apontando alternativas.
Estou com Leonardo Boff: “O que mais se exige hoje são políticos, líderes, grupos, pessoas que se sintam responsáveis e forcem a passagem do velho ao novo tempo”. Hora de ir à luta. Mãos à obra! 2013 promete!
* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.
