Jornal do Brasil

Domingo, 19 de Maio de 2013

País - Sociedade Aberta

Yes, nós temos Coca-Cola

Jornal do BrasilWander Lourenço de Oliveira*

Diante do cenário de extermínio e desolação de Columbine, o dramaturgo Ariano Suassuna afirmou que, enquanto governantes se estarreciam com a violência despropositada, o cinema hollywoodiano havia criado o arquétipo do Rambo, Indiana Jones e afins para representar o ideário de uma nação, que hoje se empenha em discutir a questão do desarmamento a cada atentado contra o direito de sobrevivência dos professores e estudantes norte-americanos. O mestre Suassuna observaria ainda que, para substituir a imagem de Jesus Cristo, vide sua origem e poder de ressurreição, inventaram a figura do Super-Homem que, pressupõe-se, se fosse preciso figurar com os seus discípulos na Última Ceia, o brinde seria com Coca-Cola.

Se a televisão e o cinema nos empanturram de subprodutos forjados pela habilidade de mídia, por que nós brasileiros não nos manifestamos por intermédio de uma posição refratária à indústria de refrigerante e à imagem de herói que, metaforicamente, irá nos redimir pelo viés do capitalismo? Por que não nos rebelamos contra a hierarquização do monopólio das transmissões via satélite e a imposição de um espetáculo lúgubre e desprezível, que embrutece os neurônios de seres humanos que, sequer, imaginam o quanto estão sendo alijados de seu bem mais precioso – a capacidade de raciocínio e inteligência?

A desestabilização do pensamento crítico de um país que, atônito e resignado, aplaude de pé a indústria da idiotização a se iniciar com a exaustiva cobertura jornalística da reeleição do Tio Patinhas havaiano e se estende até a mórbida expectativa pelos shows de Lady Gaga e Madonna que, não impunemente, paralisa a cidade do Rio de Janeiro. Não posso dizer até quando iremos suportar, em silêncio, que a sociedade se contamine com a epidemia de ignorância, que imbeciliza a população através da comercialização de um ideário que, no período de Momo, inspira os foliões a se travestirem de Batman, Hilary Clinton, Homem-Aranha, Barak Obama e Michael Jackson.

Porém, quiçá nos calamos porque todos nós, parvos espectadores deste patético espetáculo, imobilizados por consciências atadas, lucraríamos com o absoluto desinteresse dos componentes deste jogo sujo e imoral, cujos tentáculos aprisionam o imaginário por sórdidos objetivos de dominação política. Tal estratégia de predomínio embota a soberania do Estado e aniquila o discernimento de um povo que, alijado de raciocínios básicos para a formação do pensamento crítico, menospreza a força do verde e amarelo da bandeira esboçado por intelectuais e artistas brasileiros. Enquanto os usurpadores de consciências colhem os dividendos da frutificação de audiência e bilheterias, que sustentamos com a incapacidade de indignação para contestarmos tão esdrúxula programação televisiva, radialista e cinematográfica, os políticos oportunistas se regozijam porque aproveitam da inaptidão dos eleitores habituados ao holocausto das ideias, que culmina no genocídio de cento e oitenta milhões de cérebros mutilados pelos veículos de comunicação.

Bestificados pelo retumbante poderio econômico do vizinho anglo-saxão a homenagear o malandro Zé Carioca e a faceirice falsa-baiana de Carmen Miranda, diz que americanizada por Walt Disney, rejeitamos a herança de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Cândido Portinari, Villa-Lobos, Glauber Rocha, Chico Buarque etc.  É preciso atentar para o fato de que, quando importamos um comportamento que se pauta por um modelo de alienação, reabilitamos a identidade forjada pelo inconsciente coletivo, imaginário que aprisiona mais do que altar-mor de capela utilizado como espaço de catequização pela Companhia de Jesus. Enquanto a teoria de desterrados em território nacional de Buarque de Holanda aflorava com mais ênfase em pleno período de redemocratização, desfrutávamos das sessões de cinema protagonizadas pelos bárbaros Stallone eSchwarzenegger, ao passo que ignorávamos a estética do Cinema Novo, do Concretismo e da Tropicália.

O desconhecimento do patrimônio cultural nos faz renegar de tal modo a herança artística que, enquanto o Pierrô tipo classe média sai às ruas para brincar o Carnaval com a máscara de Mickey Mouse (ou Pateta?), nos habilitamos a instaurar o gingado da Colombina com trajes de Mulher-Maravilha, sotaque provinciano que, ao se indagar o que é que a baiana de Caymmi tem em seu tabuleiro de feijoada e acarajé, entoemos o apátrido refrão “Yes, nós temos Coca-Cola”.

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são  ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco@uol.com.br

Tags: aberta, coluna, lourenço, Sociedade, wander

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Comentários

1 comentário
  • Marcos Lucio Pinto

    Texto irretocável, hiperrealista, e brilhante . Só faltou citar o famigerado Halloween.É triste e preocupante um povo que não conhece ou não prioriza suas raízes.Sou brasófilo e considero a culinária, a música(de qualidade incluindo os sambas poéticos e chorinhos) e arte brasileiras, as melhores do mundo.
    Marcos Lúcio

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