Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Maio de 2013

País - Sociedade Aberta

Testamento de poeta

Jornal do BrasilWander Lourenço*

A Lêdo Ivo

Quando o Poeta acenou com um breve adeus ao mundo terreno – dizem que o ressuscitamos a cada leitura de suas obras literárias –, indagaram os familiares pelo testamento, a fim de que se partilhasse por inventário os bens materiais entre os eleitos pela vontade do falecido artista da palavra. Foi quando se deram conta de que não havia registro de documento em cartório sobre a póstuma divisão de propriedades urbanas ou rurais, conta bancária em língua estrangeira, títulos de capitalização e apólices de seguro, investimentos financeiros em bolsa de valores, baú de tesouro etc. 

Para desespero e decepção dos esfaimados herdeiros, consanguíneos ou não, o patrimônio do bardo consistia única e exclusivamente na expressão inaudita de cada vocábulo alinhado em verso à luz dos mestres antepassados e musas, que lhe legaram o ofício e a inspiração ao traço do verbo lírico ou político. De imediato, vasculharam gavetas e memórias até que, atônitos e abismados, se depararam com alguns poucos manuscritos do trovador das Alagoas sobre a cômoda do quarto de hotel ibérico. Os pergaminhos silentes se prestavam a lhes reivindicar que se queimassem as cartas de amor, o rol de roupas sujas, as inconfidências ressentidas dos confrades, a confissão interrompida, as fotografias amareladas, os rascunhos e os fragmentos de escrita antes que os atirassem aos catadores do lixo literário. 

Em esboço de antológico documento sem métrica ou rima, o vate de Maceió requereria que não o seguissem em sua insólita e singular passagem elucidada pelos timbres de um discurso, pois que, no efêmero instante da travessia, exigiria estar acompanhado de si mesmo, ao advertir que não lhe impusessem obstáculos ou regras de conduta: “Mas caso me proíbam de passar / por ser diferente ou indesejado / mesmo assim eu passarei / Inventarei a porta e o caminho / e passarei sozinho”. Após a pública leitura dos fragmentos de poesia, os ávidos e desconsolados legatários já se preparavam para a partida, quando tropeçaram nos dizeres do menestrel em disfarces de epitáfio:

"Na tarde de domingo, volto ao cemitério velho de Maceió onde os meus mortos jamais terminam de morrer[...] e em silêncio os intimo a voltar a esta vida em que desde a infância eles viviam lentamente com a amargura dos dias longos colada às suas existências monótonas”. 

Em falsete de despedida, peço permissão ao Rimbaud nordestino, conforme o diria João Cabral de Melo Neto, para a insólita transcrição que se infiltra por sobre perdas e saudade – imensidão das águas passadas que não distancia os homens, qual um relógio sem horas a se dependurar por um vão de parede ou memória –, a clamar por seu retorno sôfrego por polêmica ou anedota:

“Digo aos meus mortos: Levantai-vos, voltai a este dia inacabado que precisa de vós, de vossa tosse persistente e de vossos gestos enfadados e de vossos passos nas ruas tortas de Maceió. Retornai aos sonhos insípidos e às janelas abertas”.

Conquanto sem a sua auspiciosa e arguta presença física, meu nobre artesão das quimeras, decerto desejaria que o ano vindouro seja bom e farto, de modo que as ideias se aproximem da realidade, cujos alicerces de ilusão, na pior das hipóteses, reinventaremos com criatividade e trabalho, a fim de que as realizações se tornassem palpáveis a cada sublime e particular instante de sobrevivência. Quiçá rascunhado por tua mordaz pena de mestre do árduo ofício da literatura, à proporção que a travessia seja permeada pela lembrança dos versos deste soneto que, muito provavelmente, nos serviriam de epígrafe ao forjar o testamento de poeta, assinado por um exímio laivo de vida humana em companhia que se sublinhara por elipses metafóricas, haja vista que não prosseguiria mais solitário e convicto navegante de outrora, em sua dulcíssima e arguciosa contradição de partida, Lêdo Ivo: “Irei, levando uma mulher comigo, / e serei, mergulhado no passado, / cada vez mais moderno e mais antigo".

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco@uol.com.br

Tags: aberta, coluna, lourenço, Sociedade, wander

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