Jornal do Brasil

Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

País - Sociedade Aberta

Racionamento de energia: risco continua

Humberto Viana Guimaraes*

Em 27/12/12, com os níveis dos reservatórios em situação crítica e chegando cada vez mais próximo da Curva de Aversão ao Risco, a senhora presidente da república Dilma Rousseff afirmou que “é ridículo falar em risco de racionamento de energia”. Diante de tal declaração, só resta concluir que a presidente não está recebendo informações precisas do ministro de Minas e Energia (MME), Edison Lobão, a respeito da real situação. Se assim for, sugiro à presidente, que é assídua leitora (ao contrário de outros que já sentaram em sua cadeira), que se conecte diariamente ao bem elaborado site do Operador Nacional do Sistema (www.ons.gov.br).

Notas: 1) A Curva de Aversão ao Risco (CAR) foi criada através da Resolução nº 109, de 24/01/2002, e “define o requisito de nível mínimo mensal de armazenamento de cada subsistema equivalente de usinas hidroelétricas para garantir a segurança da operação do Sistema Interligado Nacional (SIN)”. 2) Os percentuais da CAR para 2013 citados neste texto estão de acordo com a Resolução Autorizativa Aneel nº 3.787, de 11/12/12, DOU de 21/12/12(www.aneel.gov.br).

Histórico. Na última semana de agosto de 2012, como resultado dos baixos índices pluviométricos e da situação cada vez mais crítica dos reservatórios dos subsistemas Sudeste/Centro-Oeste (SE/CO), Sul (S), Nordeste (NE) e Norte (N), foram acionadas as térmicas do grupo GT1A (gás, carvão e nuclear), quando o correto teria sido o acionamento de todas as termelétricas para economizar água dos reservatórios.

No entanto, como no citado mês o país estava em plena campanha eleitoral, o governo evitou que a população tivesse conhecimento da real situação pela qual passava o setor energético, pois tal informação poderia prejudicar os seus candidatos. Alguma dúvida? Basta ler a Nota à Imprensa do Operador Nacional do Sistema (ONS) de 18/10/12, que comunicou o despacho das termelétricas a óleo afirmando – pasmem, prezados leitores – que, “desde setembro, a metodologia dos Procedimentos Operativos de Curto Prazo (POCP) já indicava a necessidade de ligar as termelétricas a óleo para manter os níveis-meta, mas o ONS postergou a adoção da medida até o momento. Com isso, evitou uma despesa de R$ 1,4 bilhão em custos de geração que iriam impactar os consumidores brasileiros via Encargos de Serviços do Sistema”.

Como a situação se agravou, posteriormente foram acionadas todas as térmicas do grupo GT1B (óleo combustível). Por determinação do ONS, as termelétricas ficarão ligadas até que os reservatórios alcancem níveis que deem segurança ao sistema.

No momento, as térmicas estão gerando em torno de 14.100 MWmed, o que representa 22% do consumo total do SIN, sendo que o Custo Marginal de Operação (CMO) do ONS para a terceira semana é de R$ 336,29/MWhmed (subsistema SE/CO). Importante ressaltar que esse valor é variável – em função da Energia Natural Afluente (ENA) –, ou seja, quanto mais cheios estiverem os reservatórios, menor será o preço do MWh (na terceira semana de 2012, quando a situação era favorável, o valor do CMO foi de R$ 12,11).

Não obstante a geração térmica custar em torno de R$ 800 milhões por mês – o que acrescentará algo em torno de 5% na conta de energia –, o governo insiste em afirmar que as contas terão um desconto de 20% a partir de fevereiro. Não sei qual “mágica” será adotada, pois o fato concreto é que todos estes custos extras de acionamento das térmicas serão repassados integralmente para todos os consumidores residenciais, comerciais e industriais.

Tendo em vista o acionamento tardio das termelétricas, perdeu-se muita água na geração hidráulica, que somada à falta de chuvas, às altas temperaturas que aumentam o consumo e a evapotranspiração, a energia armazenada dos reservatórios apresenta os piores índices destes 12 últimos anos. Vejamos (www.ons.gov.br, 13/01/13): SE/CO = 29,83%; S = 49,04%; NE = 29,33%; e N = 42,04%. Como resultado dos baixos percentuais expostos mais acima, alguns subsistemas estão próximos da Curva de Aversão ao Risco: SE/CO = 8,83%; S = 13,04%; NE = 19,33% (a Aneel não aprovou a CAR da região Norte).

O grave em toda essa situação é que já não há mais nenhum backup de energia disponível. A situação ficou tão crítica que o governo se viu obrigado a acionar a UTE Uruguaiana (RS), que estava parada desde abril de 2009, e, para tanto, o MME (Portaria nº 1, 03/01/13) autorizou a Sulgás a importar até 2,8 milhões de m³/dia de gás para o abastecimento da mesma (tendo em vista o custo do GNL no mercado spot, o dispêndio mensal será em torno de US$ 62 milhões). A citada UTE de 639 MW, de potência instalada, voltará a funcionar na segunda quinzena de janeiro, inicialmente com 164 MWmed (25,67%), o que diante da atual situação, beirando o racionamento, é um alento.

No entanto, para agravar ainda mais a situação, a usina nuclear Angra 1 (640 MW) foi desligada no dia 05/01/2013 para manutenção preventiva, que deve durar 56 dias (www.eletronuclear.gov.br). A operação foi corretamente programada para o período úmido que, neste início de ano está mais seco do que nunca.

Diante dessa situação extremamente preocupante, sempre sugeri em meus vários textos publicados sobre o assunto neste Jornal do Brasil, que a presidente Dilma deflagrasse uma ampla campanha a nível nacional para a RACIONALIZAÇÃO do consumo da energia elétrica, inclusive dando descontos nas contas de luz para os consumidores que economizassem energia. Não resta dúvida de que a campanha já teria dado resultados positivos, e a situação do parque gerador estaria muito melhor. Mas, como estamos no Brasil, nada foi feito, pois os políticos só pensam na próxima eleição e não nos interesses da população.

Agora, só nos resta torcer para que venham as chuvas e que as termelétricas deem conta do recado. Do contrário, serão mais apagões e racionamento. Por via das dúvidas, preparem os candeeiros e lamparinas a querosene!

São Pedro já está de sobreaviso, pois, se houver racionamento, o governo não poderá culpar Fernando Henrique Cardoso!

 

* Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento.

Tags: aberta, coluna, humberto, Sociedade, viana

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