Jornal do Brasil

Sábado, 18 de Maio de 2013

País - Sociedade Aberta

As dificuldades em conceituar o tempo 

Jornal do BrasilRonaldo Rogério de Freitas Mourão*

“La méditation du temps est la tache préliminaire à toute métaphysique”. (A meditação do tempo é a tarefa preliminar a toda metafísica). Gaston Bachelard, L’intuition de l’instant (1993)

- “Le temps n’est pas un concept, c’est une intuition pure”. (O tempo não é um conceito, é uma intuição pura). Étienne Klein, Le temps (1995)

- “Fugit irreparabile tempus”. (Foge irreparavelmente o tempo). Virgílio, Geórgias, III

A procura de um conceito temporal impõe várias dificuldades; todas elas autênticos obstáculos à sua compreensão. Nesta análise, a primeira dificuldade que surge está relacionada à impossibilidade em nos mantermos afastados com referência ao tempo, como é possível fazê-lo com relação a qualquer objeto. Podemos medi-lo, mas não observá-lo à distância. Ele nos atinge íntima e continuamente. Ele está no nosso âmago. Nosso desejo seria contemplá-lo passar como o fluxo de um rio, de cujas margens poderíamos apreciar o seu fluir, sem que tornássemos parte da correnteza. Isto é impossível. Estamos inexoravelmente dentro do tempo, do qual não podemos sair. O tempo não possui exterior. 

A segunda dificuldade refere-se à impossibilidade de agarrá-lo, de interrompê-lo. O tempo arrasta o nosso pensamento assim como a nós mesmos. Não se pode impedi-lo de fluir. O tempo só sabe verter, escoar como um rio eterno que não secasse jamais. 

A terceira dificuldade advém do fato de o tempo não constituir uma “matéria” sensível a qualquer um dos nossos cinco sentidos. Ele só é perceptível como fenômeno totalizante. Apesar de o homem constituir, sem dúvida, o mais “temporal” dos animais — é, talvez, o único com consciência do tempo que passou. Só os seres dotados de memória são capazes de sentir, apreender a passagem e o fluir do tempo. Um ser sem memória não teria ideia de um intervalo de tempo, assim como um cego não tem ideia da cor. Todavia, a memória, ainda que retenha partes do passado no momento atual — no presente — não é suficiente para fazer do tempo uma matéria palpável. De modo análogo, nem a intuição nem a imaginação são suficientes para tornar o futuro antecipadamente “palpável”.  

Finalmente, devemos acentuar que o tempo se apresenta como uma ambiguidade, em geral, desconcertante. E por que não contraditória? Ele está quase sempre presente, evidente mas impalpável; substancial mas fluente; familiar mas misterioso. Apesar de a sua orientação estar direcionada para o futuro, “flechada” como dizem os físicos, o tempo permanece um objeto impossível de ser encontrado, em suma, um objeto, ou melhor, uma intuição, como diria Bachelard, simultaneamente não encontrável e incontrolável. 

As ambiguidades do tempo não impedem que os cientistas, em seus questionamentos sobre o universo e sobre o homem, estejam constantemente confrontando-o com seus paradoxos.  

Existe sensível oposição entre o tempo físico (tempo do relógio) e o tempo subjetivo (tempo de consciência). Um deles, oriundo da palavra grega cronos, é uma entidade objetiva. Além de não depender de nós, o tempo físico pode ser considerado uniforme. Por este motivo, somos capazes de cronometrá-lo. É com este tempo — a hora dos nossos relógios —, que estabelecemos o ritmo de nossas vidas. Desde 13 de outubro de 1967, o segundo foi cuidadosamente definido como o intervalo de tempo de 9.192.631.770 períodos de onda eletromagnética emitida ou absorvida por um átomo de césio 133 quando passa de um nível de energia a outro. O outro, oriundo da palavra latina tempus, é o tempo psicológico que medimos em nosso interior. Ele não flui uniformemente. Existem momentos que duram longo tempo e outros que fluem rapidamente. A fluidez do tempo psicológico é variável. Os aborrecimentos se contam em intervalo intermináveis. Durante os momentos de impaciência, seu escoar é lento mais compacto. No período de alegria é intensamente rápido.

 

Tempo físico  

Na física, o tempo é concretizado sob a forma do famoso parâmetro t que é um número real. A primeira matematização do tempo consistiu, com efeito, em não lhe dar nenhuma dimensão. Um único número é suficiente para determinar uma data. Na verdade, o tempo físico possui uma estrutura ordenada em uma reta, onde cada ponto situa-se antes e depois de um outro ponto. Tal ordenação não seria possível se o tempo tivesse várias dimensões. Para nós, ao contrário do espaço, o tempo é muito pobre. Nossa percepção só alcança duas de suas opções: a linha e o círculo. O tempo linear que avança e o tempo cíclico que se fecha em um circuito. Este último, em virtude do carácter mágico do círculo, prevaleceu sempre nos mitos. 

Aliás, a ideia do eterno retorno, que já preocupava os gregos, em particular os estoicos, seduziu os filósofos Auguste Comte e Friedrich Nietzsche. Para este último, o futuro retornaria sobre a forma de um grande ciclo que se repetiria eternamente: quer para o melhor quer para o pior. Apesar de esta visão ou concepção repetitiva do tempo, muito atraente e consoladora, ter sido abandonada pela física, pois ela viola o princípio da casualidade, ainda existem os que desejam aplicá-la à totalidade do universo, que poderia expandir ou se contrair oscilando periodicamente entre os big-bangs e os big-crunches

A configuração do tempo através de uma linha geométrica sugere a existência de um tempo único e contínuo. Não apresenta jamais lacunas, pois o tempo não cessa jamais. É contínuo e uniforme. 

Este parâmetro representativo do tempo, encontra-se em todas as equações da física, sob uma forma mais ou menos explícita: ela pode se esconder sob a forma de uma variável independente nas noções de velocidade ou de aceleração instantânea. Tal onipresença do tempo no conjunto dos princípios físicos e das equações matemáticas, além de constituir teorias, pode também sugerir as suas aplicações, bem como levantar uma importante questão: a da universalidade do tempo. Todos os tempos podem ser idênticos ou distintos entre si. O tempo da termodinâmica é o mesmo da mecânica ou da cosmologia? Como a noção de lei universal poderá ser compatível com esta temporalidade? 

Para solucionar ou tentar respondê-lo é necessário examinar o conceito de história dentro do contexto de um mundo que se modifica ao longo do tempo, que, associado a esta lei, evocaria uma oposição à imobilidade e à estabilidade. Tal ideia permite compreender a física como a vocação de descrever o imutável ou, ao contrário, de possuir uma legislação de metamorfoses. 

É necessário ver o mundo como um sistema ou como uma história

Tal debate parece insolúvel no momento. 

A própria física está atualmente dividida entre dois pensamentos gregos: de um lado Parmânides (c. 515-440a.C.), o filósofo do ser e da imobilidade, e de outro lado Heráclito (c. 550-480a.C.), o filósofo do futuro e da mobilidade. Nenhuma ciência escapa às suas origens, nem esquece seus velhos antagonismos. O debate não cessa de opor, através da história, dois campos: de um lado Isaac Newton e Albert Einstein, participantes de uma erradicação do tempo na física, e de outro lado a dos físicos como Ilya Prigogine, que, apesar de persuadido da irreversibilidade do tempo em todas as escalas da física, não deixa de se lamentar da impossibilidade de esquecê-lo ou não poder contemplá-lo. Enquanto Parmênides é um olho que observa o tempo, Heráclito é um olho que se volta para a eternidade.

 

* Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é astrônomo e escritor.

Tags: aberta, coluna, mourao, rogério, Sociedade

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