Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Paraísos fiscais e desvio de dinheiro 

Célio Pezza* 

No mês de julho, uma organização independente inglesa chamada Tax Justice Network, que se dedica a pesquisar movimentações financeiras e transparência fiscal no mundo, publicou um relatório sobre a evasão de divisas para os bancos localizados em paraísos fiscais, cruzando dados do Banco de Compensações Internacionais, FMI, Banco Mundial e governos locais. O relatório mostra que pessoas físicas e empresas do mundo todo desviaram cerca de US$ 21 trilhões para inúmeros paraísos fiscais e se isentaram de impostos nos seus países de origem, mandando o dinheiro para mais de 50 bancos destes paraísos.

Desde 2005 estas remessas vêm crescendo 16% ao ano, e muitos países que são devedores internacionais ficariam em melhor situação caso o dinheiro enviado para fora fosse taxado e usado para pagar a dívida externa. O fato é que este dinheiro está nas mãos de poucas empresas e pessoas que só se preocupam em acumular riquezas, longe de impostos e da legalidade. Muitas vezes, é um dinheiro oriundo de tráfico de drogas, corrupção e outros crimes, e que vai para bancos internacionais nos paraísos fiscais.

Existe um tremendo “buraco negro” na economia mundial, onde todo este dinheiro some enquanto o mundo mergulha cada vez mais em uma crise financeira. O dinheiro passa pelos maiores bancos do mundo como UBS, Credit Suisse, Goldman Sachs, HSBC, Bank America, Deutsche Bank, JP Morgan Chase e muitos outros, que contam com advogados e contadores especializados nestas operações, nas maiores capitais do mundo. 

O relatório também considera escandaloso o fato de que instituições oficiais, como o Banco Mundial, os Bancos Centrais e o próprio G20 não dão a devida importância para o assunto. Este problema de evasão de divisas, se resolvido, poderia transformar muitos países de devedores para credores, e até mudar os rumos da economia mundial, acabando com crises financeiras em muitos locais. Existe dinheiro para movimentar a economia mundial e acabar com problemas crônicos como a fome, a falta de saúde, educação e outros. O fato é que ele sai de forma irregular da economia para os bolsos de poucos, sob o olhar complacente de quem deveria coibir esta prática. 

No ranking dos países que mais desviam dinheiro, a China aparece em primeiro, com US$ 1.189 bilhões, seguido pela Rússia com US$ 798 bilhões e Coreia com US$ 779 bilhões. O Brasil aparece em quarto lugar, com desvio de US$ 520 bilhões até o final de 2010, seguido da Venezuela, com US$ 406 bilhões, e Argentina com US$ 399 bilhões. O bom deste relatório é que mostra ao mundo onde está o problema e, com isto, torna possível uma solução.

* Célio Pezza é escritor e autor de diversos livros, entre eles, 'As sete portas' e, o mais recente, 'A nova terra – Recomeço'. -  escritor@celiopezza.com

Tags: aberta, celio, coluna, pezza, Sociedade

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