Todos os que administram o trânsito no Brasil, com raras exceções, estão, confortavelmente, entrincheirados na desculpa de que somente o transporte de massa poderá solucionar a falta de mobilidade urbana. Até lá, vão tentando solucionar pontos de contumazes engarrafamentos e tentando dar mobilidade ao transporte por ônibus, apelidados, quando em pistas exclusivas, de BRS. Como, mesmo este tipo de transporte coletivo não dá ao usuário do carro de passeio o mesmo conforto deste, não deixam de utilizá-lo para o ir e vir trabalho-casa. E, o que é pior, o fazem sozinhos ocupando o espaço viário que a mobilidade urbana reclama. Constituem-se no que eu chamei, comparando a circulação viária com a sanguínea, de “colesterol ruim”. É preciso eliminá-lo, com o transporte de massa confortável, ou substituí-lo pelo “colesterol bom”.
E o que é o colesterol bom? É o transporte solidário entre donos de carro que se conheçam, o car pool a fim de se livrarem da “Taxa de congestionamento”,de custo de 100 reais/dia, criada para punir o “colesterol ruim” e obrigá-lo a se transformar em “colesterol bom”, mediante o aluguel de um chip identificador de custo mensal de apenas 40 reais(dois reais por dia útil) Não satisfeitos com esta medida restritiva, criamos, obedientes ao aconselhamento do mestre inglês Sir Alker Tripp, quando disse, em 1936: “No trânsito tudo que se puder obter mediante medidas construtivas não se deve impor, mediante restrições legais” — por exemplo, um prêmio, em dinheiro, em sorteio semanal, com valor proporcional ao número de componentes de cada car pool — a fim de premiar os “homens de boa vontade” que cooperam com a paz no trânsito. Esta mudança de hábito, que é sempre difícil, válida apenas para o período do pique matutino, é capaz de eliminar de 50 a 80%, da quantidade circulante de carros de passeio. A taxa de congestionamento, como a de juros, para controlar a inflação, sobe com a piora da mobilidade e desce com a sua melhora, a critério do administrador.
É isto, de maneira resumida, o que eu chamei de sistema URV (Utilização Racional da Via) ou o “pedágio inteligente” e que ninguém aceita nem comenta. Já o enviei a várias autoridades, a técnicos que escrevem artigos sobre o tema da mobilidade urbana, ao Ministério das Cidades, até à Fetranspor, e, até agora, nem reposta, com exceção do Ministério dos Transportes, que me participou haver encaminhado para um setor que estuda o assunto.
A renda do sistema gerada pela contribuição dos componentes do “colesterol bom”, é de 4 milhões de reais/mês, para cada 100 mil veículos. Ou seja, para uma frota, como a do Rio, de 3 milhões de veículos, a arrecadação mensal poderia chegar a 120 milhões de reais. Esta verba poderia ser utilizada, como ocorre no Primeiro Mundo, para subsidiar o transporte público, acabando com o ônus de o usuário ter que pagar a sua passagem, a um preço que é reajustado periodicamente.
Vejo na mídia as constantes manifestações dos usuários, em todo o Brasil, contra os aumentos de passagem do transporte público que, pesam, no mínimo, cerca de 25% do orçamento mensal do trabalhador.
Eu só queria entender o porquê do silêncio. Não acredito que seja por não entendê-lo ou, in extremis, por ciúme profissional. Só pode ser por covardia política do desgaste de criar uma taxa extra, sem se lembrarem que o periódico aumento de passagens é muito mais desgastante do que a “taxa de congestionamento”, principalmente se considerado o seu alcance social. Estão penalizando a maioria, por medo de onerar a minoria.
Para corroborar com o que tentei aqui explicar, permitam-me registrar um aconselhamento, de um grande político do velho PSD mineiro, embaixador Negrão de Lima, quando nos ensinava: “A opinião pública se forma na Zona Sul, mas a eleição se ganha com os votos da Zona Norte”.
Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - [email protected]