Jornal do Brasil

Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

País - Sociedade Aberta

Soberania brasileira contra farsa política

O verdadeiro objetivo da carta é desviar a atenção das manobras imorais do primeiro-ministro

Jornal do BrasilDalmo Dallari *

Jornais italianos divulgaram trechos de uma carta que o presidente da Itália, Giorgio Napolitano, enviou à presidente brasileira Dilma Rousseff, propondo que esta modifique uma decisão rigorosamente legal do ex-presidente Lula, tomada com estrita observância das normas jurídicas nacionais e internacionais aplicáveis ao caso, alegando que tal decisão não foi do agrado dos italianos. 

Imagine-se agora a presidenta brasileira escrevendo uma carta ao governo da Itália, propondo a mudança da decisão que manda tratar como criminosos os sem-teto por serem potencialmente perigosos, dizendo que tal decisão causou desilusão e amargura no Brasil, sobretudo entre os que lutam por justiça social e pelo respeito à dignidade de todos os seres humanos. Certamente haveria reações indignadas na Itália, por considerarem que tal proposta configurava uma interferência indevida na soberania italiana.

 A verdadeira razão da carta do presidente italiano nada tem a ver com desilusão e amargura dos italianos, mas faz parte de uma tentativa de criar um fato político espetaculoso, que desvie a atenção do povo italiano das manobras imorais, ilegais e antidemocráticas que foram realizadas recentemente e continuam sendo elaboradas visando impedir que seja processado criminalmente o primeiro-ministro, Sílvio Berlusconi, pela prática de crimes financeiros, corrupção de testemunhas, compra de meninas pobres para a promoção de bacanais, crimes que já são do conhecimento público e que ameaçam a perda da maioria do governo do Parlamento. 

A Itália adota o parlamentarismo, e a perda da maioria acarretará a queda do governo, com a perda dos privilégios e da garantia de impunidade não só de Berlusconi mas de todos os políticos  e corruptos de várias espécies que integram o sistema liderado por Berlusconi.

 Ainda de acordo com os jornais italianos, a carta do presidente Napolitano é patética e evidentemente demagógica, dizendo que a entrega de Cesare Battisti à Itália vai aliviar o sofrimento causado por todo o derramamento de sangue dos anos 70. 

Na realidade, aquela época é conhecida como “anos de chumbo”, período em que ocorreram confrontos extremamente violentos, havendo mortos de várias facções, de direita e de esquerda. E segundo o presidente italiano a punição severa de Battisti, tomado como símbolo, daria alívio a todo o povo. Pode-se bem imaginar a espetacular encenação que seria feita e toda a violência que seria usada contra Battisti, para mostrar que, afinal, os mortos estavam sendo vingados. E com isso a crise política ficaria em plano secundário. 

Para que não haja qualquer dúvida quanto à farsa, basta assinalar que, como noticia a imprensa italiana, na lamentável carta o presidente diz que Battisti foi condenado à pena de prisão perpétua por ter assassinado quatro pessoas. E hoje qualquer pessoa razoavelmente informada sobre o caso sabe que esses quatro assassinatos, que deram base à condenação, incluem a morte de duas pessoas, no mesmo dia e praticamente na mesma hora, tendo ocorrido um na cidade de Milão e outro em Veneza Mestre, locais que estão separados por uma distância de mais de trezentos quilômetros. Seria praticamente impossível a mesma pessoa cometer aqueles crimes, e isso não foi levado em conta no simulacro de julgamento de Battisti. Só alguém com algum tipo de comprometimento ou sob alguma forte influência poderá tomar conhecimento desses fatos e fingir que eles são irrelevantes para o direito e a justiça. 

 Por tudo isso, a lamentável carta do presidente Giorgio Napolitano, se realmente chegou a ser enviada, deve ser simplesmente ignorada, para que o Brasil não seja usado numa farsa política e para que não se dê qualquer possibilidade de interferência antijurídica e antiética nas decisões soberanas das autoridades brasileiras.

 

* Dalmo Dallari é professor e jurista 

Tags: battisti, Berlusconi, dilma, itália

Comentários

4 comentários
  • geraldo, cataguases
    geraldo, cataguases

    O povo italiano tem que saber que em uma guerra se morre e se mata. Eles deveriam é dar uma medalha para esse Battisti, pois ele com os outros companheiros tiveram a coragem de lutar contra o governo ditador e covarde que imperava na Itália na época.Agora que a Itália é um país democrático,eles querem a cabeça dquele que juntamente com seus companheiros colocaram a própria vida em risco para que isso fosse possível.O Brasil através do presidente Lula deu a ele o asilo político.Isso tem que ser respeitado e acatado por todos os outros poderes. Manda quem pode obedece quem tem juízo. Aqui mandamos nós:O POVO BRASILEIRO.

  • Marcos, Poços de Caldas
    Marcos, Poços de Caldas

    Muito bem mestre, precisamos de juristas assim e expõe o fato, comenta, ensina os acadêmicos e assina.Parece que o único instituto que pode alcançar Battisti é a expulsão, porque o refúgio já foi deferido e extradição só se houver violação de leis.É sabido em nossa legislação que a expulsão não pode ser para a Itália.

  • PAULO, FLORIPA
    PAULO, FLORIPA

    Parabéns aos colegas acima, foram felizes em seus comentários, por que mesmo que batisti fosse culpado não deveriamos fomentar a desmoralização brasileira.
    Que eles estão pensando, bobo só na corte do Rei, aqui não tem rei nem parlamentarismo por enquanto.

  • Carlos, Brasília
    Carlos, Brasília

    Não entendi a correlação entre o questionamento da legalidade da decisão do ex-presidente, que deixou de cumprir um acordo entre, repito "entre", os Estados democráticos do Brasil e da Itália, e uma imaginária crítica a uma decisão legal proferida internamente pelo Governo Italiano.
    Uma coisa é um acordo entre 2 Estados, onde a ambas as partes cabe reclamar sobre isso ou aquilo, outra coisa é uma decisão interna de cada Estado. Lembrando que para o STF o caso é típico de exrtadição e que deve ser cumprido o acordo.
    Acredito que na defesa de suas idéias o nobre jurista se perdeu nas comparações.
    Demonstrou assim falta de isenção no trato da questão.

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