Jornal do Brasil

Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Sociedade Aberta

Machado, doutor honoris causa

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Arnaldo Niskier *, Jornal do Brasil

RIO - É justíssima a homenagem que a Uni-Rio prestou, por intermédio da reitora Malvina Tuttman, à figura emblemática de Machado de Assis. Ele mereceu, por sua obra, o título de Doutor Honoris Causa desta importante universidade federal, o que foi outorgado ao autor de Dom Casmurro em sessão solene.

Na ocasião, pudemos afirmar que o que faz o sucesso eterno e imortal de Machado de Assis é a característica de universalidade dos seus personagens. Numa conferência sobre o maior escritor brasileiro de todos os tempos, surpreendi-me com a comparação entre Cervantes e Machado, feita por Carlos Fuentes, na Academia Brasileira de Letras. Ele é um dos maiores escritores mexicanos da atualidade. Além de encontrar semelhanças entre dois escritores separados por séculos de vida, o autor mexicano afirmou, na Academia: Sem Machado, não teria existido uma literatura latino-americana digna de apreço .

Lembro-me, então, do Conto de escola, em que a motivação do narrador para comparecer às aulas era a sova de vara de marmeleiro que havia levado do pai. Um santo remédio. Nessa escola, que era um sobrado numa rua pobre no centro da cidade do Rio de Janeiro a Rua do Costa o mestre mais interessado em ler os jornais que ensinar a lição, comparecia em chinelas de cordovão.

No entanto, este conto, mais que da educação sistemática, fala daquela que a vida nos dá, pois o garoto pobre, que é o narrador, acaba por dizer que foram dois colegas, o Raimundo e o Curvelo, que lhe deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação. Ele sempre valoriza essas amizades. Mesmo em Dom Casmurro, a amizade do Bentinho pelo Escobar era em princípio muito bonita. Machado gostava de valorizar a cumplicidade dos amigos.

Foi um valente defensor da educação da mulher, na sua época bastante desconsiderada, socialmente. Segundo ele, por não ir à escola, nem por isso era menos inteligente .

A cultura de Machado de Assis veio do seu autodidatismo, pois ele só fez os estudos primários. É verdade que era pobre e precisou trabalhar como tipógrafo. Machado aprendeu francês com a dona da padaria, onde trabalhava como entregador. Era a única outra língua que ele conhecia, porque Machado, jamais, em toda a sua vida, saiu do Rio de Janeiro, a não ser uma breve visita a Barbacena, por motivos não muito claros.

Lembro-me, também, do conto Ex-cátedra, onde um homem, amante dos livros, que vive sozinho com a afilhada, resolve, ao receber um sobrinho órfão, casar os dois jovens. Para isso, recorre a uma pedagogia muito especial. Primeiro, lições de astronomia, depois, de filosofia. Tratava-se de provar a existência do homem, só que a lição foi na chácara, e a natureza falou mais alto que a lição, porque aquilo que Fulgêncio era este o nome do homem dos livros imaginara para seis meses começou a florir rapidamente, quando os dois jovens viram casais de borboletas e andorinhas. Em função do convívio, da idade e do isolamento, a chácara era longe de tudo, os jovens começaram a amar-se, antecipando muito o que Fulgêncio planejara.

* Além de presidente do CIEE/RJ, Arnaldo Niskier é doutor em educação e membro da Academia Brasileira de Letras.



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