Jornal do Brasil

Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

País - Sociedade Aberta

De vento em popa

Jornal do Brasil

Thelman Madeira de Souza *, Jornal do Brasil

RIO - Contrariando o seu perfil político mais articulador, Dilma Rousseff vai ganhando espaço na mídia e abocanhando pelas beiradas o eleitorado cativo de Lula. Candidata bisonha, com pouca experiência política e administrativa, aproveita-se da popularidade de Lula e da timidez da Justiça Eleitoral para consolidar-se como postulante viável à Presidência da República. Até agora, esse avanço não foi contido, por conta das vacilações do alto comando tucano e da falta de carisma do candidato José Serra, incapaz de produzir um discurso que empolgue o segmento dos excluídos em nossa sociedade.

Essa é a realidade eleitoral: de um lado, uma candidata com o apoio acintoso da máquina governamental e um discurso demagógico; do outro, um candidato sem discurso e solapado pelo próprio partido. E quem duvidava da capacidade do presidente da República de transferir votos deve precaver-se, pois as pesquisas mostram um crescimento sólido da mulher ungida pelo presidente Lula, como sua sucessora.

É claro que o fenômeno da transferência de votos não resulta de uma força sobrenatural, capaz de transformar um poste em concorrente competitivo à Presidência da República. A questão é bem outra e deve ser analisada, friamente, se possível, à luz da ação política, fundamentada na psicologia social. Infelizmente, para a oposição tucana e aqueles que divergem do governo petista, pelo viés ideológico, isto é, os que enxergam no governo Lula uma traição ao ideário petista, o homem, hoje, à frente dos destinos da nação, além de bafejado pela sorte, carrega em seu sangue o vírus da mistificação das grandes massas.

Lula, apesar do baixo nível intelectual, é capaz de exprimir pelas palavras, certos estados de alma de um povo sofrido e sem esperança. A ciência atual confirma essa possibilidade, porque, através de pesquisas rigorosas de laboratório, mostra-se apta a prever reações do comportamento humano e demonstrar, com convicção, que a palavra, falada ou escrita, tem importância como forma de excitação. Lula sabe disso por intuição, faro ou dádiva e age, como um Rasputin do século 21, apontando o caminho da salvação do país. Ao manipular as necessidades materiais da nossa população miserável, com uma propaganda orientada e apoiada em recursos técnicos e econômicos poderosos, Lula influencia a opinião pública, levando o andar de baixo da sociedade a apoiar anseios que não são seus.

Com essa capacidade de manipulação, coadjuvada por um apoio da máquina governamental e da capilaridade do Partido dos Trabalhadores, Lula pode se atrever a bancar uma candidata da sua escolha, por pior que ela seja.

Enquanto isso, a oposição tucana padece da incompetência e da discórdia em suas hostes. De fato, as possibilidades da candidatura tucana, ainda que tenham um significado para um segmento pequeno e politizado da nossa sociedade, são irrelevantes para as nossas elites que já têm assegurado, pela situação, o respeito aos contratos e ao modelo econômico imposto de fora. Se levarmos em conta que o projeto tucano só difere do petista na forma de administrar a inserção assimétrica do Brasil na globalização, poderemos inferir que a vitória de Dilma ou de Serra pouca diferença fará para o povo brasileiro.

Com os descontos dos arroubos lulistas no plano internacional, caracterizados por um discurso dúbio que se rende às decisões das potências hegemônicas, o governo Lula é uma cópia fiel do governo FHC. Pertencem ao mesmo gênero e espécie. Assim sendo, por que mudar o que está bom para o empresariado nacional e internacional? Para desgosto de uns e gáudio de outros, já decidiram: vão de Dilma. Com as circunstâncias a seu favor, só cabe a Lula colocar a sua jangada na água e esperar pelos bons ventos.

* médico

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