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Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Antônio Candeia Filho foi um dos mais importantes sambistas da história do Brasil. Foi também policial, e durante o exercício da profissão levou um tiro que o deixou preso a uma cadeira de rodas durante os últimos anos de sua vida encerrada em 1978. Pois agora a lei volta a perder para o crime em uma macabra coincidência. O Ciep Antônio Candeia Filho, na problemática comunidade de Acari, no Rio, foi assaltado oito vezes em três meses. E qual foi a medida enérgica que o poder público (a prefeitura) fez para acabar com essa bagunça? Fechou a escola...

O episódio lembra a famosa anedota em que o marido flagra a mulher em adultério com outro homem no sofá da sala e, em vez de se separar, resolve apenas tirar o sofá da sala. Mas o caso do Ciep não é para risos. A infeliz medida não pode, é claro, jogar por terra o trabalho que vem sendo feito na delicada questão da segurança pública (pelo governo do estado). As UPPs estão dando certo e precisam ser apoiadas. O caso de Acari é mais um alerta, bastante barulhento, de que ainda há zonas inexpugnáveis na cidade, onde o poder público não atua. A polícia admite que não tem nenhuma pista sobre quem fez isso... oito vezes, repita-se.

Seria bê-á-bá de qualquer polícia reforçar a segurança na escola logo depois do primeiro assalto. E aumentando o efetivo ou o poderio das ações até que nenhum bandido se atrevesse mais a chegar perto da segunda casa das crianças. Ao ver que não houve qualquer reação oficial, a bandidagem viu-se à vontade para fazer o que faria em todos os bairros da cidade se pudesse: acabar com as escolas, matar aos poucos a educação, agindo cirurgicamente para deixar, no máximo, uma ou outra escola para os jovens ricos que no futuro seriam suas vítimas ou os consumidores de suas drogas da morte.

O Rio do bem já havia se chocado com a morte de um aluno de 11 anos, no mês passado baleado dentro de uma sala de aula no Ciep Rubens Gomes, em Costa Barros. Chocado, mas não surpreso, já que é público que os bandidos são suficientemente covardes para atacar quem está indefeso.

Esse primeiro episódio, tivesse ocorrido na Zona Sul, ou em um colégio particular, certamente teria impelido as autoridades a tomarem medidas mais duras. Quase nada se fez, e agora a Secretaria Municipal de Educação se vê obrigada a fechar um Ciep, para evitar uma tragédia maior talvez só mortes sejam tragédias maiores que fechar-se a porta de uma escola, ainda mais em uma comunidade onde quase todas as portas da vida já estão trancadas.

Os responsáveis pelos roubos à escola não podem ficar impunes. A resposta da polícia tem de ser à altura. Como seria se essa gente, em vez de roubar Cieps, tivesse matado um policial militar.

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