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Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2018 Fundado em 1891

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Os próximos do player Brasil

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Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Alguns motoristas de ônibus, brincando com o que deveria ser levado a sério, costumam dizer que quando o veículo está cheio demais eles dão uma freada para reacomodar melhor os passageiros. De certo modo, em sentido figurado, foi o que fez o governo Lula nestes oito anos com relação à política externa. Apesar de ter feito história em alguns casos, faltou que algumas conquistas fossem mais duradouras.

O Brasil ergueu a voz, fez-se ouvir, foi alçado à categoria, se não de protagonista, de importante player na política mundial. Agora, terreno muito bem aplainado por Lula, é preciso que os candidatos à sucessão não apenas preservem o que se conquistou mas avancem rumo ao protagonismo.

Um tema importante que sempre foi caro a Lula era o ingresso no Conselho de Segurança da ONU. Primeiro, cabe pensar sobre o porquê de o Brasil não ter conseguido entrar nesse seleto clube. O tal fórum, se espremermos bem, nada mais é que a polícia do mundo. E, como bem sabemos, toda polícia precisa estar bem equipada com armas, há um dado bélico na genética dessa função. Se o Brasil entrasse no Conselho, e lhe fosse dada uma missão militar pesada, um conflito como os que os americanos tiram de letra, estaríamos aptos a agir?

Mais: ainda que estivéssemos aptos, é assim que queremos nos relacionar com o mundo? Mais do que entrar, o Brasil precisa saber em qual sócio deve se espelhar. O que o país do homem cordial , de Sérgio Buarque de Hollanda, quer ser: como os Estados Unidos potência militar, mas alvo do ódio de toda a parte do planeta que os liga a Israel , ou como, digamos, o Canadá, um país que se faz ouvir, respeitar e admirar sem precisar dar um único tiro? Se a resposta for a segunda opção, vamos por um caminho bom na economia, damos os primeiros passos nas questões sociais, e gastamos energia à toa colocando o carro do Conselho de Segurança à frente de outros bois.

Outro problema no qual o sucessor de Lula pode e deve conseguir dar alguns bons passos adiante é na relação com a América Latina. A liderança que o Brasil tinha como incontestável até há pouco tempo está sendo ameaçada por Hugo Chávez. Lula adotou pesos e medidas distintos para governos e população da Venezuela, Cuba, Honduras. E a dubiedade em política é ruim. Chávez pode ter mil erros, mas todos sabem quem ele é e o que pretende.

Finalmente, o próximo presidente tem um caminho a avançar nas relações com o Oriente Médio, notadamente com o Irã. Lula foi certeiro ao colocar-se como alternativa à política de força dos EUA, mas errou a mão ao dar a impressão de que se colocava simplesmente ao lado de Ahmadinejad, incondicionalmente, e não de que estava ali como conciliador de interesses.

O governo que está prestes a se encerrar fez história em vários setores, o da política externa é um deles. E seu sucessor, seja quem for, tem a obrigação de avançar, melhorar, para ser também sempre lembrado pela história.

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