Jornal do Brasil

Domingo, 22 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Sociedade Aberta

O estatuto virado para a lua

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Villas-Bôas Corrêa *, Jornal do Brasil

RIO - Então, estamos conversados: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou na terça-feira, dia 27, o projeto de lei que modifica o desconhecido e jamais aplicado Estatuto do Torcedor, que promete transformar do dia para a noite, a partir de hoje, o comportamento das torcidas e torcedores, com o toque de mágica, em passivos, silenciosos espectadores, de fazer inveja às alunas do Colégio Sion ou aos alunos do antigo e saudoso Caraça, em que a língua falada era o latim.

Vamos às normas já em vigor e que enquadram os torcedores que lotam os estádios nesta fase de ouro, depois do fiasco de Dunga na Copa do Mundo da África do Sul. Alguns exemplos didáticos da severidade da lei do peladeiro e fanático torcedor do Corinthians e do Vasco, presidente Lula.

A criminalização da violência nos estádios é ampla e irrestrita. Nada escapa. Proíbe a venda de ingressos por cambistas, com a aplicação da pena de reclusão de um a dois anos, além ampliar para um a quatro anos de reclusão a quem fornecer, desviar ou facilitar a distribuição de ingressos com preço superior ao fixado no bilhete. Se o vendedor for servidor público, dirigente ou funcionário de entidade esportiva, a pena pode ser aumentada em um terço. Mas a cana vale também para o torcedor que estiver vendendo bilhete. E, para não deixar escapar nenhum meliante, pode ser punido não só quem vende mas também quem tem o ingresso na mão ou quem facilitou a venda.

Para o torcedor que não conta com o pistolão que facilita muita coisa e abre porta de xadrez, convém adotar precauções para esconder o bilhete até a entrada do estádio.

Num rasgo de generosidade e tolerância, o novíssimo Estatuto do Torcedor reconhece as torcidas organizadas que não estão proibidas, para ficar bem claro mas elas serão responsabilizadas pelo comportamento dos seus filiados. Uma espécie de babá de marmanjos. Para dar conta das suas muitas responsabilidades, elas terão que cadastrar todos os seus membros e passam a responder civilmente pelos danos causados por qualquer um deles, seja no estádio, nas imediações ou no trajeto de ida e volta.

Sobra para a imprensa esportiva, o bando que instiga os torcedores e estimula a violência em campo. A torcida organizada que promover tumulto, incitar a violência, invadir o gramado, ameaçar juízes, jogadores, dirigentes, fiscais ou jornalistas será proibida de comparecer a eventos esportivos pelo prazo de até três anos.

Os árbitros entraram no forró pela porta dos fundos, caso sejam responsabilizados por interferir para mudar o resultado do jogo. Xingar o juiz e sua família será tolerado, mas nada de cânticos racistas, xenófobos ou discriminatórios.

Antes de começar a prender torcedores, jogadores, juízes, bandeirinhas, o governo terá que reformar o sistema penitenciário que está uma bagunça. Prender onde, se as penitenciárias, os xadrezes estão superlotados, com presos amontoados, pendurados nas grades, sem espaço para deitar, mal alimentados e em regime de violência e pancadaria?

Os dois mandatos do presidente Lula não lhe deram tempo para pensar em presos. Se já foi difícil atender a todos os pidões apesar do inchaço da burocracia, em que, como coração de mãe, só resta uma saída: sempre há lugar para mais um.

* repórter político do JB



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