Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Selvino Heck

Doze abraços

Selvino Heck*

Não sei quem teve a ideia ou o proclamou, tampouco sei onde ou quando, mas dizem que devemos dar doze abraços todos os dias. Abraços fortes, apertados, coração no coração, de irmãs, irmãos, companheiras, companheiros. 

Foi o que propus, no Instituto Espírito Santo de Inovação Social, aos participantes do 7º Encontro Macro Sudeste da Rede de Educação Cidadã (Recid):   12 abraços cada dia. De 15 a 17 de agosto, 50 educadoras/es populares e lideranças  sociais aprofundaram o tema Diversidade, Unidade e Transformação: Então vamos sonhar ligeiro, sonhar em mutirão.

A Carta Política aprovada no Encontro, explica: “Reunidos em nosso 7º Encontro Macro Sudeste, em Ibiraçu, Espírito Santo, nós educadores/as populares envolvidos com diversas lutas do campo e da cidade (MST, MPA, agroecologia, catadores, direitos humanos, movimentos negros, juventude, mulheres, ocupações urbanas, quilombolas, economia solidária, entre outros), sintetizamos nesta Carta o que acreditamos ser os desafios centrais para a atuação da Rede de Educação Cidadã no próximo período. 

Vivemos momentos cruciais e delicados de uma conjuntura política adversa ao campo da garantia dos Direitos Humanos e de construção de um projeto popular para o país, tendo, de um lado, novas formas de lutas sociais, novos atores e novas estratégias e táticas de reivindicação, e questionamento do sistema capitalista globalizado e, de outro, um acirramento das forças de direita e do conservadorismo. 

Os desafios são imensos para avançarmos e reafirmar os valores e práticas de um projeto popular para o Brasil. Há um forte investimento do capital no mascaramento e nas disputas ideológicas, em torno do projeto de dominação que sustenta. Estimula-se o consumismo, o individualismo e o apelo à felicidade imediata. Na Região Sudeste, acentuadamente urbana, os problemas ligados a este modelo de dominação se acentuam em diferentes formas de violência, especialmente contra a juventude e as mulheres, e de exploração dos/as trabalhadores/as. Temos um contexto forte de criminalização da luta e dos movimentos sociais. 

No campo dos movimentos sociais, e na própria Recid Sudeste, ainda vivemos momentos de desarticulações e fragilidades, porém há iniciativas de mobilizações interessantes pós-junho/2013: assembleias horizontais em Belo Horizonte, ocupações urbanas, luta por moradia, pela tarifa zero para transporte coletivo em várias capitais, aumentos das ocupações urbanas e novas formas de organização das juventudes.

Há esperança, portanto. Diz a Carta Política: “Aprofundamos também, a partir da experiência da construção da Política de Educação Popular em Saúde e da experiência da educação do Campo, os caminhos da construção da Política Nacional de Educação Popular (Pnep), compreendendo-a dentro de um projeto popular mais amplo que combina a luta institucional e a luta popular. Aprofundamos ainda os três eixos mais comuns ao trabalho da Recid na Região Sudeste – agroecologia, economia solidária e juventude –, partindo de experiências e realidades locais e do debate sobre as políticas públicas para cada campo. E também desenvolvemos uma oficina de comunicação, com o debate político sobre os desafios deste campo e capacitação em produção audiovisual”.

O Encontro debateu o Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana sobre o Sistema Político e o Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Reforma Política, que vão acontecer de 1º a 7 de setembro numa Semana Nacional de Mobilização coordenada pela Plataforma dos Movimentos Sociais, CUT, MST, OAB, CNBB, pastorais sociais, entre outras organizações. Informações e contatos: www.plebiscitoconstituinte.org.br; www.reformapoliticademocratica.org.br.

Na diversidade de pessoas, de práticas, de realidades, de movimentos sociais e populares, constrói-se a unidade de pensamento, de valores, de projeto, a utopia da transformação: um Brasil justo, solidário, fraterno, uma América Latina igualitária e soberana, um mundo sem guerras, sem genocídios, de paz. 

Como se fosse bênção, durante os três dias do Encontro, precisei sair da aridez de Brasília, 20% de umidade relativa do ar, onde não chove desde o inicio de junho, para ver água caindo do céu. Quase nem foi possível visitar e conhecer os arredores do belo prédio do instituto, antigo seminário, cheio de árvores e verde, que me fez recordar meus tempos de seminário em Taquari, Rio Grande do Sul. De vez em quando, um ronco enorme e um silvado agudo lembravam que, próximo ao local do Encontro, há uma estrada de ferro e passa o trem que transporta o minério de ferro das Minas Gerais para o mundo. 

Os desafios são muitos, a coragem também. Os doze abraços mais do que se justificaram. Eram energia pura, companheirismo na veia. É bom saber que há quem, nos tempos de hoje, doa parte de seu tempo para que outras e outros tenham mais vida. É gostoso testemunhar que há quem sonhe. E são muitos, cada vez mais. Cada abraço é como se fosse um sonho. Sonhos antigos e sonhos novos. Por isso, os participantes do Encontro cantaram, de mãos dadas e abraçados: “Então vamos sonhar ligeiro, sonhar em mutirão”. 

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: desafios, educadores, ideia, lideranças, proclamou, sonhar

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