Jornal do Brasil

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014

Selvino Heck

Tempo de conversa, militância e reformas

Selvino Heck*

Sábado passado, de manhã, inaugurei a temporada de panfletação eleitoral na rua, sob um ventinho que cortava a alma na esquina da Praça Central, ao lado da bela catedral de Santa Cruz do Sul, interior do Rio Grande do Sul, junto com uma dezena de militantes de bandeiras no ombro, adesivos no peito e muita disposição. 

Fiquei agradavelmente surpreso. Oferecia os materiais de campanha dos candidatos que apoio, dizia bom-dia e perguntava: “Já tens candidato? Posso lhe oferecer material dos meus para a eleição de outubro?” E desfiava os nomes, de presidente a deputado estadual. 

Muita gente aceitou de bom grado os panfletos de campanha. Uns tantos e tantas, a maioria apurados, com compras nos braços – era sábado de manhã –, empurrando carrinhos de filhos e filhas ou crianças no colo, recusavam delicadamente. Alguns aceitavam colocar os folhetos nas sacolas de compras. Alguns poucos diziam: “Não quero, não aceito, este ano não voto em ninguém. São todos uns ladrões. Os políticos não prestam mesmo!”. 

Nos últimos tempos, e mais a partir das manifestações de junho de 2013, vem crescendo a rejeição à política em geral e aos atuais políticos brasileiros em particular. Para muitos, a política parece ser um estorvo para a vida e a sociedade. O que pode aumentar votos brancos e nulos nas eleições de outubro, em especial para deputados estaduais e federais. 

As campanhas eleitorais encareceram muito. Cada campanha gasta uma Mega-Sena das gordas. Outro dia, o ministro Gilberto Carvalho contou que alguém, um candidato, sentou à sua mesa no Palácio do Planalto e falou dos milhões que precisaria arrumar e gastar para ser eleito. A ex-ministra e deputada federal Maria do Rosário expressou a mesma preocupação em conversa recente, dizendo estar abismada com o que estava vendo: gastos de campanha nas alturas, disposição cada vez menor de militantes e apoiadores de trabalharem gratuita e militantemente a favor de ideias, sem receber nada de material ou financeiro em troca. 

Quem participou das Diretas-Já, da Constituinte, ou das grandes mobilizações sociais, greves e ocupações nos anos 1980, em tempos de retomada da democracia, da liberdade de organização, povo nas ruas, lembra a energia militante que circulava por todos os poros. Não havia hora, nem tempo, nem lugar, nem final de semana em que todas e todos, especialmente jovens, punham as bandeiras às costas, batiam nas portas das casas, faziam marchas, defendiam propostas, lutavam pelo futuro, construíam esperança. A política e a militância eram como o sangue correndo nas veias, fazendo bater o coração. 

Os tempos do neoliberalismo, nos anos 1990, deixaram todos e todas mais duros e burocráticos. Eram tempos de resistência para não perder direitos, não haver retrocessos. E perdeu-se, ou institucionalizou-se, muito da energia militante dos anos 1980. 

Chegou a hora, o momento, a urgência e a oportunidade de retomar a garra militante. O clique, quem sabe, tenha sido dado pelos jovens na rua em 2013, os movimentos de habitação popular em 2014, os debates via redes sociais, sinalizando uma reversão do quadro de apatia, ou de se mobilizar apenas quando há algum ganho material imediato ou financiamento

O Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana sobre o Sistema Político e o Projeto de Lei de Iniciativa Popular para uma reforma política, que estão em  realização e terão um momento especial na semana de 1º a 7 de setembro, talvez possam ser uma faísca que levará alegremente as pessoas às ruas. Abaixo-assinados pela reforma política, urnas circulando e recolhendo votos em sedes de sindicatos e associações de bairros, comitês de candidatos, igrejas, comunidades, escolas, centros de formação e empresas são um chamado ao debate e à participação. 

No Plebiscito Popular, cada votante responderá à seguinte pergunta: “Você é a favor de uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema político?” No projeto de lei de iniciativa popular, basta assinar para exigir a reforma política. Informações e contatos: www.plebiscitoconstituinte.org.br; www.reformapoliticademocratica.org.br

As reformas de base dos anos 1960, abortadas pelo golpe militar de 1964, continuam atuais. Permanece sua urgência: reforma política, reforma do Estado, reforma agrária, reforma das comunicações, reforma tributária. Ou os cinco pactos propostos pela presidenta Dilma Rousseff em 2014: estabilidade, saúde, educação, mobilidade urbana e reforma política.  

Como sempre aconteceu na história do Brasil, mudanças, transformações, conquistas de direitos não nascem por doação das elites conservadoras. Aconteceram e acontecerão de baixo para cima, fruto da mobilização social e popular. E a política poderá recuperar seu pleno sentido maior de servir, não de ser servido, de estar a serviço dos que mais precisam, de buscar o bem comum, de construir uma sociedade justa, fraterna, igualitária, de perseguir o sonho e a utopia de um tempo novo de solidariedade e justiça. 

É tempo de conversa, de militância e de reformas.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: Catedral, justiça, mudanças, panfletação, solidariedade, transformações

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