Jornal do Brasil

Domingo, 26 de Outubro de 2014

Selvino Heck

 Papai Léo. Papais    

Selvino Heck*

Papai Léo era duro, mas justo. Era, sobretudo, honesto. Papai amava a família e a comunidade. Trabalhava muito. Como agricultor familiar, não tinha dia, às vezes nem noite, ou final de semana livre.

Não sei como ele, mamãe, vó Gertrudes e tia Leonida, que moravam com a gente, davam conta de criar nove filhos, garantir-lhes comida, dar-lhes escola, cuidar de seus estudos todos os dias. Todos sãos e vivos em 2014.

A severidade cotidiana de papai não impedia de ele dar liberdade e confiar. A gente ia e voltava sozinho da escola desde o primeiro dia. Nada de ficar nos acompanhando, até porque eles, papai, mamãe, tia e avó tinham que trabalhar na roça. Cada um tinha que aprender as coisas, ter responsabilidade, virar-se, dar conta dos primeiros passos.

Quem quisesse, por exemplo, ir para o seminário aos onze anos como eu, e, portanto, queria tomar seu próprio rumo, começar uma vida distante de casa quase o ano inteiro, ou, mais tarde, namorar quem quisesse, a decisão era de cada um, que arcava com suas escolhas, segurava as pontas sem chorar. A vida era de cada um, e cada um que lidasse com ela. Cada um dos filhos seria o que quisesse ser. Era dono do seu próprio nariz e destino. Nada de reprimendas ou impedimentos. Os erros e acertos eram de cada um.

Papai sabia da educação que tinha dado. Os valores básicos, baseados no amor, na responsabilidade, no cuidado com os outros e a natureza, na solidariedade, no compromisso, estavam dados, o apoio também. Quando fui impedido de ser ordenado padre, depois de expulsão da universidade por envolvimento no movimento estudantil, coisa muito difícil de compreender naqueles tempos – anos 1970 – embora a dor e decepção que provavelmente papai e mamãe sentiram, nenhuma reclamação ou crítica. Minhas escolhas eram minhas escolhas, e a confiança estava dada em qualquer circunstância.

A comida era para ser comida: variada e saudável, muita verdura sempre e carne de galinhas, porcos e terneiros criados em casa. Nada de desperdício. Nunca jogar comida fora. Enchido o prato, precisava ser raspado até o último grão de arroz ou naco de aipim. Ai se sobrasse comida no prato! E nada de escolher. O que estivesse à mesa, era para ser comido, gostasse ou não gostasse. Afinal, o que se comia era, em sua quase totalidade, fruto do suor de todos os dias, outono, primavera, inverno ou verão. Se sobrasse alguma coisa, ia para as galinhas, gatos e cachorros, religiosamente.

Papai estava sempre presente na comunidade. E os filhos iam junto: igreja, sociedade, clube de bolão, campo de futebol. Se precisasse doar dias de serviço em detrimento de estar na roça, de plantar e colher, a comunidade estava sempre à frente, em primeiro lugar. Ou se precisasse de ajuda material e financeira, fazia-se um aperto aqui e acolá para sobrar algum para a comunidade católica, a sociedade e o time de futebol, o glorioso São Luiz de Santa Emília (aliás, o hoje famoso Mano, técnico reconhecido, andou jogando por lá como amador). Papai era torcedor. Ficava grudado no alambrado do campo gritando para os filhos que estavam jogando pelo São Luiz. Uma vez tive que segurá-lo: estava com uma pedra de bom tamanho na mão, pronto para executar o juiz que, segundo ele, tinha roubado. E ele atirava tribem!

Papai pregava e praticava o trabalho coletivo e solidário. Um ajudava o outro a colher a soja, antes que a chuva viesse e estragasse o fruto. Matar um boi ou porco grande era tarefa que juntava vizinhos ou parentes, assim como pintar a igreja, aparar a grama do campo de futebol, construir a sede da sociedade.

Papai era multidisciplinar. Sabia fazer tudo e de tudo, herança dos ascendentes alemães. Lia-se muito lá em casa – livros, jornais, a Bíblia, muitas vezes em alemão. Papai era um sábio. Sabia fazer um vinho muito bom, belos cestos de vime, relhos, mesas e cadeiras. Havia uma marcenaria em casa com todos os apetrechos. Sabia de ouvido todos os afazeres e cuidados de uma roça, a posição da lua, o clima, vai chover ou não, o tempo do plantio e da colheita. Não precisava de agrônomos e técnicos no dia a dia. Seu saber popular garantia o pão diário dos nove filhos em crescimento. E naqueles tempos não se precisava de agrotóxicos ou sementes transgênicas. O estrume produzido por porcos, gado e galinhas era inteiramente aproveitado e dava um milho lindo e gostoso, ou o feijão, o aipim, verduras, frutas e legumes à farta.  A semente era crioula.

Papai não tinha medo de meter a mão na massa, no barro ou onde fosse necessário. E ainda tinha tempo e disposição para cantar no coral da igreja São Luiz, que se reunia uma noite por semana para ensaiar.

Como tantos e tantas que somos filhos e filhas, sempre acho que apreendi muito pouco dele. Ele era muito mais capaz e sábio que eu, que ocupei (e ainda ocupo) cargos importantes na vida, tive acesso à faculdade, fiz tantas coisas, até fui deputado, viajei mundo afora.  Ele nunca saiu das fronteiras de Santa Emília, interior de Venâncio Aires, ou no máximo, os arredores de Taquari, onde era o seminário de meus estudos franciscanos. Desconfio que nunca  conheceu Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul, ou viajou de avião.

Nossos papais nos acompanham, vivos ou não. São nossos guias ao longo de tempo. FELIZ DIA DOS PAPAIS. Viva todos os papais do mundo!

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: comida, comunidade, duro, família, honesto, justo

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