Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Selvino Heck

A velha máquina de escrever

Selvino Heck*

Sou daqueles que, em priscas eras, resistiram muito tempo até entrar, conhecer e aderir  às "maravilhas" da internet. Achava estar muito velho para aprender aquilo tudo. Sei só o básico. Quando necessário, anjos da guarda como Clécima e Aline resolvem os inúmeros problemas de todos os dias: como copiar um texto; ah, apertei uma tecla errada e apareceu não sei o quê e que não sei desfazer, como salvar aqui e acolá, como enviar, etc, etc, etc). E  resisti ainda mais tempo até me convencerem a filiar-me no Facebook. Que, aliás, vez que outra, penso em abandonar, para voltar à vida tranquila de antes. Talvez não o tenha feito ainda porque através dele reencontrei amigos e amigas das antigas, com quem, vez que outra, troco mensagens, fotos de tempos idos, lembranças e memórias. (E ainda há quem me tente com  um tal de linkedIn, agora me falaram de um nome esquisito, whatsapp, etc).

Sou daqueles que ainda usam agenda de papel (nos últimos anos a da Folha do Mate, jornal da minha terra), onde anoto tudo: compromissos e números de telefone, começo a redigir meus artigos à mão à la Ariano Suassuna, escrevo poesias para elas. Quantas notícias de quem colocou quase toda sua vida no celular e, por coisas do destino e do descuido, perdeu tudo, toda memória num instante azarado! Com minha agenda preciosa, jamais isso aconteceu comigo. E ainda tenho escrito e declarado tudo o que aconteceu nos últimos anos, para um futuro, e aguardado por alguns, livro de memória e de vida.

Chego nas inúmeras reuniões e vejo: alguém está falando dos melhores programas de governo, fazendo uma profunda análise de conjuntura e, dos quinze participantes da reunião, uns oito, disfarçadamente, estão plugados no celular, lendo notícias e mensagens, alguns mexendo no lépi, e todos fazendo de conta que prestam atenção no que está sendo dito.

Como fazíamos naquele tempo – todas e todos mais antigos –, sem internet e celular, não sei explicar hoje. Eu escrevia de poesias e artigos a longas análises, na velha máquina de escrever. Podia-se fazer só duas ou três cópias, era difícil fazer correções, e assim por diante.

Mas agora fiquei deveras preocupado. Li manchetes recentes: Espionagem: NSA (Agência Nacional de Segurança dos EUA) coleta milhões de imagens de cidadãos. Número 2 do Facebook pede desculpas por experimento feito sem o consentimento de usuários. A NSA está se disfarçando de Facebook para invadir seu computador (inclusive gravar áudio e imagem de webcams). Fotos de sexo de alvos da NSA eram partilhadas – acesso às imagens era "rotineiro", diz Snowden. Segundo denúncia, Apple, Microsoft, Facebook e Google entregam dados de usuários à NSA voluntariamente. O mundo orwelliano da NSA.

O que fazer, se é que é possível fazer alguma coisa?

Um: não dar ou dar um mínimo de informações ao Facebook

A partir das manchetes, alguns detalhamentos de notícias: “Imagens dos terroristas mais procurados pelos Estados Unidos, fotos de passageiros de linhas aéreas e até das carteiras de identidade de cidadãos estrangeiros registrados em bancos de dados internacionais, todas as fotografias e até cenas de vídeos on-line são coletadas pela Agência de Segurança nacional (NSA) e usadas em sofisticados programas de reconhecimento facial, o que permite, entre outras, identificar um indivíduo mesmo que seu aspecto físico mude”.

Sheryl Sandberg, a número 2 do Facebook, falou sobre a pesquisa feita com 700 mil usuários sem que eles soubessem: “Isso (o experimento) foi parte das pesquisas que as empresas fazem para testar diferentes produtos, e foi somente isso. Nós nunca quisemos chatear vocês (usuários)”.

Declaração de Snowden, sobre as bisbilhotices da NSA: “Os agentes topam com coisas totalmente não relacionadas ao seu trabalho, como fotos íntimas de pessoas nuas. O que eles fazem? Viram-se na cadeira e mostram para o colega. E o colega diz ‘essa é ótima, vamos mandar ao Bill’”.

O que fazer, se é que é possível fazer alguma coisa?

Um: não dar ou dar um mínimo de informações ao Facebook, como faço, embora este fique perguntando: mas você é de tal lugar? Você estudou em qual colégio? (Aliás, várias informações dele a meu respeito são completamente erradas).

Dois: reagir como fez a presidenta Dilma Rousseff e apoiar a aprovação do Marco Civil da Internet, exemplo para o mundo.

Três: fazer como russos e alemães. Voltar à velha máquina de escrever.

Escreve Sérgio Augusto, em Achem a Olivetti: “Não se sabe quem ressuscitou o vinil – e, com ele, os toca-discos –, mas a recente ressurreição da máquina de escrever, em plena era da informática, tem três comprovados responsáveis: o Wikileaks, o ex-técnico da NSA Edward Snowden e o Kremlin. A velha máquina de escrever, acreditam alguns, pode ser uma arma eficaz no combate à xeretagem oficial, aos cyber-snoops que roubam e traficam dados de computadores sem deixar rastros. Quando os primeiros documentos classificados do governo dos EUA vazados por Snowden escandalizaram o mundo, no ano passado, os russos foram os primeiros a exaltar a superioridade da máquina de escrever sobre o computador na guerra de espionagem. Hackers não invadem máquinas de escrever, e o que delas sai impresso pode ser facilmente identificado e rastreado, argumentou na época o primeiro-ministro Dmitri Medvedev dando vivas aos documentos à antiga, datilografados (e criptografados) em papel e destruídos após a leitura. ‘Para manter segredo, o método mais primitivo é o mais seguro: uma caneta na mão ou um teclado ao alcance dos dedos’, enfeitou Medvedev” .

Ou o que descreveu Ruy Castro, em À prova de vazamento: “Talvez por isso (a bisbilhotice geral), o chefe do Parlamento alemão, o democrata-cristão Patrick Sensburg, tenha anunciado em televisão que ele e seus colegas estão considerando voltar a usar máquina de escrever para redigir os documentos mais sigilosos. O apresentador perguntou se ele estava brincando. E Sensburg, na lata: ‘Não, não estou. Os russos já estão fazendo isso desde o ano passado’”.

Minhas reticências e desconfianças têm toda razão de ser. Talvez vá ressuscitar a velha máquina guardada no apartamento em Porto Alegre. Afinal, russos e alemães sabem das coisas mais que ninguém.

*Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: alemães, clécima, internet, priscas eras, resistiram, russos

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