Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Selvino Heck

Reforma do futebol e da política

Selvino Heck*

Para mudar, seja na vida pessoal, ou em qualquer campo ou espaço, privado ou público, é preciso um abalo, um acontecimento único, um choque, às vezes, em termos simbólicos, um terremoto, ou uma revolução. Foi o que aconteceu (ou poderia vir a acontecer ou ainda poderá acontecer) depois do 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil, em meio à Copa das Copas, elogiada por todos como a melhor depois de muito tempo. 

Ninguém suporta mais como funciona o futebol brasileiro. A questão (pelo menos para mim) não é o Felipão, o Dunga, Tite, Mano (por sinal, todos gaúchos) ou qualquer técnico brasileiro. A questão é a estrutura do futebol brasileiro, arcaica, nada democrática, sujeita à corrupção. O presidente da CBF é eleito apenas pelos presidentes de Federações. Nem presidentes de clubes, nem jogadores, árbitros, técnicos, muito menos torcida apitam nos destinos do esporte mais popular do Brasil e do mundo. Em poucos clubes, como Grêmio e Inter, no Sul, os presidentes são eleitos diretamente pelos sócios, que são dezenas de milhares pagando a mensalidade em dia.  

O zagueiro Paulo André, um dos líderes do Bom Senso Futebol Clube, movimento criado por jogadores para melhorar o futebol brasileiro, publicou nas redes sociais foto com  cartaz "DEMOCRACIA NA CBF, JÁ”, e pediu apoio dos torcedores. Diz Paulo André: “Quem estiver insatisfeito com a CBF (dos Teixeiras e dos Marins) mostre sua indignação e peça democracia, já! A presidente Dilma e o Congresso Nacional têm uma importante decisão a tomar. Desenvolver e modernizar o esporte e o futebol brasileiro ou deixar tudo como está. Se optarem por modernizar, precisam pressionar os dirigentes e condicionar o parcelamento da dívida fiscal dos clubes com (1) o fortalecimento da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE) e (2) a democratização da CBF. Todos nós queremos uma entidade mais democrática, onde os jogadores, as jogadoras, os atletas de ‘beach soccer’, os treinadores, os executivos do futebol, os preparadores físicos, os árbitros e os torcedores tenham voz e possam participar das principais discussões do nosso futebol. O futebol brasileiro não pode ter um dono. Ele é patrimônio do povo”.  

Não por outro motivo a presidenta Dilma Rousseff recebeu duas vezes representantes do Bom Senso FC para ouvi-los e debater temas como a democratização da CBF, estrutura dos clubes no país, futebol feminino e questões da responsabilidade fiscal dos clubes, e vai receber presidentes de clubes brasileiros. Rui, jogador e do Bom Senso FC, falou: “Na primeira reunião, a gente focou em três pontos – LRFE, regulamentação para democratizar a participação de atletas nas assembleias das entidades e a criação de um Plano Nacional de Desenvolvimento do Futebol. E hoje a gente fez um estudo mais aprofundado em cima desses três pontos, de que forma iam funcionar os trâmites dentro da Constituição”. Não se trata, pois, de criar a Futebrás, muito menos a Futebrax, mas sim de democratizar a estrutura do futebol brasileiro.  

Se no futebol está sendo assim, na política não é diferente. Todas e todos, eleitores/as, cidadãs, cidadãos de todos os setores sociais concordam com a necessidade urgente de uma reforma política. Mas ela não acontece, embora a presidenta Dilma tenha enviado projeto para o Congresso Nacional e tenha, a partir das mobilizações de junho de 2013, proposto a reforma política como um dos cinco pactos urgentes e necessários. Como diria Brizola, os "interésses" de alguns não querem reforma nenhuma.    

Na sociedade, o clamor é geral. Cresce a rejeição à política, tal como é feita, e aos políticos. Por isso, movimentos sociais, igrejas, partidos, organizações e instituições da sociedade civil estão organizando duas ações: um Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana sobre a reforma política e um Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Reforma Política. 

O Plebiscito Popular já conta com mais de 600 comitês populares espalhados por todo Brasil. De 1º a 7 de setembro, urnas serão instaladas e circularão em igrejas, sindicatos, comunidades, escolas, para que brasileiros e brasileiros votem, respondendo à seguinte pergunta: Você é a favor de uma Constituinte exclusiva e soberana sobre o sistema político? A expectativa é que haja mais de 10 de milhões de eleitores e votos. Informações: www.plebiscitoconstituinte.org.br

O Projeto de Lei de Iniciativa Popular, coordenado pela Coalização Democrática – Reforma Política e Eleições Limpas, está recolhendo assinaturas em favor de uma proposta de   reforma política. O objetivo é atingir pelo menos um milhão e meio de assinaturas, possibilitando a entrada no Congresso do Projeto de Lei de Iniciativa Popular. Informações: www.reformapoliticademocratica.org.br

Em agosto, haverá uma semana unitária de mobilização nacional das duas iniciativas populares. De 1º a 7 de setembro acontecerá, unitariamente, a Semana Nacional pela Reforma Política, junto com o debate político-eleitoral. 

Mais uma vez, como ao longo da história, as mudanças no Brasil só acontecem de baixo para cima, com mobilização social, com pressão popular. Foi assim nas Diretas-Já, na Constituinte, no impeachment presidencial, na aprovação de leis como a Maria da Penha, na conquista de direitos a favor do povo. 

São os jogadores de futebol que se organizam pela primeira vez na história. É o povo na rua, exigindo mudanças, mais qualidade dos serviços públicos, assinando a proposta de Projeto Lei de Iniciativa Popular pela Reforma Política e participando do Plebiscito Popular a favor de uma Constituinte Exclusiva e Soberana. 

Quando o povo se mexe e se move, as coisas acontecem. 

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: bom, clube, futebol, mudar, pessoal, plebiscito, popular, senso, vida

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