Jornal do Brasil

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Selvino Heck

A história na frente do nariz

Selvino Heck*

Não é todos os dias que a história bate à nossa porta ou passa na frente do nosso nariz. E não é por causa da Copa das Copas, de amplo sucesso e repercussão internacional. 

Algumas manchetes de grandes jornais brasileiros: Brics criam banco e mostram força política (Valor Econômico, 16/07/14); Com banco, Brics dão demonstração de força (Correio Braziliense, 16/07/14); Brics dão notável demonstração de como a ordem econômica está mudando (Financial Times). Editorial da Folha de S. Paulo diz: “Pela primeira vez, um grupo de países em desenvolvimento obtém convergência suficiente para criar instituições fora da órbita imediata do sistema multilateral erguida pelas potências ocidentais em meados século passado” (FSP, 17/07/14) Nas palavras do articulista Kenneth Maxvell, “o conceito Brics foi lançado quando o mundo vivia um momento ‘monopolar’. Washington estava ascendente. Os EUA eram vistos como a única superpotência no planeta e dominavam as instituições financeiras mundiais. A União Soviética havia desabado. O dólar era a moeda de referência. Mas o mundo mudou dramaticamente. (...) São pequenos passos, mas um começo importante. Apesar das diferenças entre eles, os Brics começam a se transformar em importante força, que deverá ser levada em conta” (Brics por obrigação, FSP, Opinião, 17/07/14). Na análise de Vinícius Torres Freire, “os Brics deixaram de ser mera conversa fiada desde ontem, quando criaram o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e uma espécie de ‘miniFMI’, o Acordo de Reservas de Contingência” (Brics engrossam a voz, FSP, Mercado, B4, 16/07/14). 

A reunião dos Brics, na semana de 14 a 18 de julho, e que contou também com a presença de dezenas de presidentes da América do Sul e Caribe, dá-se num momento de mudanças no mundo. Márcio Pochmann escreve em Dominação financeira e suas contradições, numa série de artigos publicada por Carta Maior (www.cartamaior.com.br): “Simultaneamente (à decadência relativa dos Estados Unidos), percebe-se o reaparecimento da multicentralidade geográfica mundial com um novo deslocamento do centro dinâmico da América (EUA) para a Ásia (China). Também países de grande dimensão geográfica e populacional voltaram a assumir maior responsabilidade no desenvolvimento mundo, como no caso da China, Brasil, Índia, Rússia e África do Sul, que já respondem atualmente pela metade da expansão econômica do planeta. São cada vez mais reconhecidos por países-baleia, que procuram exercer efeitos sistêmicos no entorno de suas regiões, fazendo avançar a integração suprarregional, como no caso do Mercosul e Asean, que se expandem com maior autonomia no âmbito das relações Sul-Sul”. 

A criação do Novo Banco de Desenvolvimento e o Acordo de Reservas de Contingência é o principal fato econômico desde a crise econômica de 2008. Fura o esquema financeiro global traçado em 1944, em Bretton Woods, no final da Segunda Guerra Mundial. Segundo Márcio Pochmann, “a reorganização mundial desde a crise global em 2008 vem se apoiando numa nova estrutura de funcionamento que exige coordenação e liderança mais ampliadas. Os países-baleia podem contribuir muito para isso, tendo em vista que o tripé da nova expansão econômica global consiste na alteração da partilha do mundo derivada do policentrismo associado à plena revolução da base técnico-científica da produção e do padrão de consumo sustentável ambientalmente”. E mais, segundo Márcio: “As decisões de hoje tomadas pelos países de grandes dimensões territoriais e populacionais podem asfaltar, inexoravelmente, o caminho do amanhã voltado à constituição de um novo padrão global. Quem sabe faz acontecer, como se pode observar pelas iniciativas brasileiras recentes”. 

Tem toda razão a presidenta Dilma Rousseff, quando disse no discurso de abertura da Sessão Plenária da VI Cúpula do Brics em Fortaleza: “O Brics ganha densidade política e afirma seu papel no cenário internacional. Hoje, criamos o Banco dos Brics e estabelecemos o Acordo Contingente de Reservas, importantes passos para o aperfeiçoamento da arquitetura global. Essas iniciativas mostram que nossos países, apesar de sua diversidade geográfica, étnica, cultural e linguística, estão decididos a construir uma parceria sólida e produtiva, com consequências altamente positivas para o sistema internacional. Reiteramos o compromisso dos Brics com um multilateralismo transparente, democrático e eficaz, que aponta para um mundo multipolar. A escolha do tema ‘Crescimento no Mundo Sustentável’ apresenta para nós um desafio que emerge também da Conferência Rio+20. Nós consideramos que é necessário crescer, é necessário conservar e proteger. Por isso, no plano internacional, a discussão sobre o crescimento inclusivo e sustentável passa pelas negociações da agenda de desenvolvimento pós-2015, com a criação dos OBSs – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Os OBSs representam grande oportunidade para integrar, em uma agenda global de grande visibilidade, os esforços para a erradicação da pobreza e promoção de desenvolvimento sustentável no mundo”. 

Estamos assistindo não a uma época de mudanças mas a uma mudança de época, como disse tempos atrás o presidente do Equador, Rafael Correra, referindo-se às mudanças políticas na América Latina, e o papa Francisco, em entrevista recente ao Il Messaggero, jornal italiano: “Estamos vivendo não tanto uma época de mudanças mas uma mudança de época. E, portanto, se trata de uma mudança de cultura”. 

Às vezes, a história passa na frente do nosso nariz, e a gente mal se dá conta. 

*Selvino Heck  é asessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República

Tags: copa das copas, manchetes, papa, repercussão, sucesso

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