Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

Selvino Heck

De futebol, magia e 'otras cositas'

Selvino Heck*

Imaginava escrever sobre outra coisa, outro tema. Mas o impacto dos 7 a 1 da vitória da Alemanha contra o Brasil não permite. É preciso esperar o fim da Copa, digerir os resultados e poder (re)abrir-se para um universo mais amplo. 

A magia do futebol acaba superando (quase) tudo. Como explicá-lo? Por que a gente joga futebol? Por que a gente ama tanto o futebol? Por que a gente torce, se empolga, grita, xinga o técnico e o juiz, veste amarelo, dorme mal ante a derrota inexplicável? Por que o futebol domina conversas e interesses por dias, semanas, e todos são técnicos, sabem e opinam sobre táticas, conhecem a vida de jogadores, colecionam e trocam figurinhas, leem tudo sobre tudo de futebol e não se cansam?   

O potreiro ao lado de casa de papai Léo era nosso templo. Final da tarde era sagrado, antes de o sol se pôr e antes de vacas, bois e terneiros serem chamados para o estábulo, lá estávamos correndo atrás da bola. Duas goleiras, às vezes usávamos só uma, um pequeno campinho, grama macia, bola de borracha — a primeira bola de couro, presente de Natal, foi uma festa. Tínhamos quase um time completo: sete irmãos homens e uma irmã também jogadora. Naqueles tempos, em geral as famílias eram grandes. E às vezes vinham os vizinhos, primos e parentes, e dava campeonato. 

O sol começava a se pôr, e não arredávamos pé. Era bola pra cá, bola pra lá, xingamentos, vibração. Até que papai Léo chamava. Não íamos. Chamava uma segunda vez. Não atendíamos. Chamava uma terceira, já com a bainha do enorme facão na mão. Mesmo sabendo que podíamos levar alguma chapoletada, ainda resistíamos. 

Foi um dos nossos aprendizados: jogar futebol no potreiro ao lado de casa. Nossa alegria, nossas brigas (um dos irmãos, quando não ganhava, punha a bola debaixo do braço e a levava para casa ou a chutava longe), mas também nossa felicidade eterna, nossa brincadeira maior, nossa infância bem vivida, enquanto aprendíamos a trabalhar na roça, enquanto estudávamos e nos preparávamos para a vida. 

Foi quando que escutei no enorme rádio de casa as vitórias do Brasil nas Copas de 1958 na Suécia e 1962, no Chile. 

Na Escola São Luiz havia um campinho de peladas na frente da igreja, chão duro, sem grama. Jogávamos todos os dias. Minha maior glória foi começar a jogar no Esporte São Luiz de Santa Emília, Venâncio Aires. Fui titular no último jogo do seu primeiro campo e no primeiro jogo do campo existente até hoje, e onde continuo sócio do time de Veteranos.  No Seminário em Taquari, o futebol matava um pouco a saudade da família e da comunidade. Depois, freis franciscanos, nosso time viajava pelo interior do Rio Grande, mescla de visita a comunidades, gosto de jogar futebol e os primeiros passos no aprendizado de pastoral no meio do povo. Deputado estadual constituinte, nosso time de futebol de salão reunia-se todas as semanas para jogar, beber e confraternizar. Em janeiro de 2014, aniversário do ministro Gilberto Carvalho e jogo no campinho do sítio, depois de relutar e alguém se machucar, não resisti, entrei em campo e, mesmo no calor dos sessenta bem vividos, acabei dando conta do recado. 

Futebol é alegria. Futebol é sabor de vitória. Futebol é reconhecimento. Futebol é encontrar os amigos, beber junto. É torcer pelo eterno e insubstituível time do coração e pela pátria. É como escreve Leonardo Boff em Rito e jogo: Coisas muito esquecidas: “O comer e o beber na festa não visam matar a fome e saciar a sede. Para isso comemos em casa ou num restaurante. Eles simbolizam a amizade e a alegria no encontro e de juntos participar de um evento como uma partida de futebol. Cantar na festa não quer ser um show de música artística, mas expressão ritual de euforia e de desafogo existencial. E como se celebra e se bebe quando o time de estimação vence uma partida ou ganha um campeonato!”  

Futebol é coletivo, é não andar só. Não se ganha no futebol sem contar com os companheiros. Mesmo sendo Pelé, Garrincha ou Neymar. Ou o Furacão das Colônias, Valdir Scheibler, maior craque da história do meu São Luiz de Santa Emília. Ou o Pavilhão Airton ou Renato Gaúcho do meu Grêmio campeão do mundo. Futebol joga-se junto, dando o passe para quem está do lado, comemora-se chorando abraçados seja qual for o resultado.  

A Copa está terminando. Segunda, 14 de julho de 2014, a realidade e o cotidiano vão se (re)impor. Mas o futebol e sua magia não deixarão de fazer parte da vida. Precisamos de festas, de alegria, de derrotas e vitórias. Assim fazem-se as pessoas, sobrevivem as comunidades, constrói-se um país, um povo, uma nação.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: ALEMANHA, escrever, impacto, outro, tema, Vitoria

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