Jornal do Brasil

Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Selvino Heck

"Fantastic people"

Selvino Heck*

O mundo descobriu não só o Brasil nesta Copa mas descobriu, principalmente, o povo brasileiro.

Quem já viajou para o exterior, especialmente a Europa, sabe a diferença. Quando fui à Inglaterra nos anos 1980, procurei sair de Londres o quanto antes possível e voltar a Paris. Eu não era só o estranho, o desconhecido que mal arranhava algum inglês. Eu era o mal recebido, o mal querido (pelo menos, assim me sentia), para quem as pessoas não dirigiam ou mal dirigiam a palavra. Na casa onde fiquei hospedado – casa de um membro de ONG; um encontro com esta ONG era a razão da viagem –, o dono da casa mandou que eu me virasse: nem explicações sobre a cidade, muito menos acompanhar-me para um tour ou para algum pub. Virei-me sozinho e, mesmo na solidão, não deixei de tomar uma cerveja, num pub da vizinhança da casa onde estava. 

Na fala a mim concedida na reunião com a ONG, quando eu ia entrar no assunto que me trouxera ao país, avisaram-me que meu tempo de fala terminara e passaram, sem cerimônias e aviso prévio, para outro assunto que nada tinha a ver comigo e com minha presença. Era como se minha presença não interessasse, não fosse importante. Cumpria-se apenas um protocolo. Um choque, especialmente para um marinheiro de primeira viagem! 

São culturas, hábitos e formas de agir diferentes, por óbvio, sei disso, e seguramente nem todos os ingleses são ou agem assim. Ao longo do tempo, conheci muitos, trilegais, parceiros/as, companheiros/as de jornada e luta, paus para toda obra como se diz. 

Virou (quase) folclore uma diferença, entre tantas, de ingleses/europeus e brasileiros. O brasileiro, a brasileira, chega beijando, um, dois ou até três beijos, e abraçando. O outro, a outra, inglês ou europeu, recua espantado/a, todo/a sem graça. Um toque no corpo do outro cria um frêmito, um estranhamento. 

Os turistas que vêm ao Brasil, por essas e outras razões, sentem-se leves, livres e soltos. O brasileiro, alegre e expansivo, mesmo não sabendo nada da língua do outro, logo puxa conversa, fala de qualquer assunto, explica a cidade, acompanha-os para algum lugar, vai beber e rir junto e, no limite, oferece a casa, mesmo sem nunca terem-se visto antes na vida. 

E há ainda o sol, as belezas da natureza, as praias, a caipirinha, e as diferentes culturas e biomas num país imenso, país continente. 

Uma das cenas mais bonitas desta Copa, fantástica até, aconteceu em Porto Alegre,  referida inclusive pela presidenta Dilma Rousseff em discurso no Rio de Janeiro. No Caminho do Gol – trajeto assim apelidado por onde os torcedores de diferentes países, misturados aos brasileiros, seguiam em massa, a pé, do centro de Porto Alegre, Mercado Público e Prefeitura,  até o estádio Beira Rio, na base de cantos, gritos de guerra das torcidas e muita alegria –, a Banda da Brigada Militar gaúcha tocava música para animar os passantes. Tocou Aquarela do Brasil. Chega uma banda holandesa, toda de laranja. E começa a tocar Aquarela do Brasil. De repente, um brigadiano, que é como se chamam os policiais militares gaúchos, acerca-se do maestro da banda da BM e cochicha algo no seu ouvido. São retiradas as cancelas que separavam as duas bandas. A banda holandesa mistura-se à banda da Brigada Militar e tocam, juntas, Aquarela do Brasil

Poesia pura. A música e a alegria misturando povos, forças da segurança pública e sociedade. Algo assim talvez só possa acontecer no Brasil. 

Neste contexto, a BBC Brasil, em reportagem nos primeiros dias da Copa, pintou o seguinte retrato: “Já está se falando que a Copa das Copas prometida pelos governantes está acontecendo dentro e fora das grandes linhas. Fora delas, a hospitalidade dos brasileiros tem garantido a satisfação dos turistas, que estão aproveitando para viver uma ‘grande festa’ na Copa do Mundo no Brasil. A BBC Brasil conversou com croatas, ingleses, mexicanos, argentinos e tantos outros estrangeiros. Quando perguntados se estavam gostando do Brasil, a resposta tinha sempre algo em comum: ‘fantastic people’ (povo fantástico)”.

Alguém pode e tem toda razão em perguntar: os brasileiros todos, as brasileiras todas são assim? Por acaso, não há racismo no Brasil? Brasileiros não são racistas? Não são preconceituosos? Parcela deles não é elitista? E a desigualdade social? E os mil problemas que o Brasil tem? 

Por óbvio, não se pode, nem se deve esconder os defeitos e problemas. Há momentos, por outro lado, em que é necessário deixar de ser e sentir-se vira-lata, e afirmar qualidades e virtudes, e sentir-se parte de um povo e de uma nação. A Copa do Mundo de futebol está dando esta oportunidade ao Brasil e ao povo brasileiro. E se o Brasil for campeão, que é o desejo maior, ou mesmo não o sendo, o orgulho de morar no Brasil e de ser brasileiro/a fará explodir o grito de autoafirmação e autoestima. O futebol, um esporte coletivo, faz milagres.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Tags: bbc, brasil, Copa, estrangeiro, festa, Mundo, povo, Racismo, recebido

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